Presente Carnavalesco (Ep3)

911234567 – 06h03

Olá, Nuno, é a Ana. Como estás? Desculpa estar a mandar-te mensagem, pedi o teu número ao João. Espero que não te importes! Estivemos no nosso brinde há pouco e quando encontrei o João e o Diogo, e eles me contaram o que se passou, não queria acreditar. Nem sabia que já não estavas com a Marta, tenho estado pouco por cá :/  Não te chateies com eles, só quis mesmo dizer-te que no que puder ajudar estou aqui. És um bacano. Beijinho grande.

Com esta não contava ele. Olhou novamente para mensagem e voltou a lê-la, letrinha por letrinha. Assim que acalmou o espanto, entregou-se à fúria. Aqueles palhaços andaram a contar o que se passou, vociferou mais alto que a consciência e, visivelmente, irritado. Tirou num assombro a gravata e camisa e atirou-as para o sofá. Foda-se!

Começou a fumar compulsivamente e a tentar ligar ao João ou Diogo, sem conseguir que eles atendessem. Estava tudo mais à flor da pele, pelo latejo do álcool a escorrer nas veias. Já eram 9h30 da manhã, às 13h30 tinha que estar no escritório e não havia forma de se entabuar do sono. Responder à Ana também não estava nos planos, sentia-se envergonhado e de alguma forma incapaz. Não tinha grande articulação para explicar aquele sentimento, mas era o que proliferava pelas suas entranhas. Na penumbra, de uma imagem de coitadinho, acabou por cair no sono, sentado no sofá, pelas dez da manhã. Acordou e já passava do meio-dia, com um peso ombreado pela cabeça e suportado pelo coração, que o fazia sentir-se um caco, um pedaço desajustado desta esfera que roda dia após dia.

– Boa tarde, Sr. Baptista. Posso entrar? – Questionava, já com a camisa elegantemente posta para dentro das calças de sarja azuis. Com o cabelo desordeiramente penteado e o olhar lavado.

– Claro, Nuno. Sente-se, por favor. – Respondia o responsável da sua vida profissional, completamente alheio ao tumulto do campo pessoal. – O que tenho para falar consigo é rápido, só lhe pedi para vir a esta hora, porque também tenho que ir ao meu carnaval. Estou velhote, mas ainda vivo isto. – Disse sorridente, contagiando o Nuno numa gargalhada.

– Claro, Sr. Baptista. Assim é que tem que ser, só temos uma vida. – Esta frase fazia-lhe um eco tremendo, pelo canal da audição. Disse o que sempre diria, o que descrevia quem era, mas desta vez soou-lhe estranho. Pensou em tudo o que perdeu.

– Bem, indo ao que realmente interessa. O que quero falar consigo é sobre expectativas, Nuno. – Ao ouvir esta frase saltou, na consciência, da cadeira e fitou o Sr. Baptista com o olhar. – As minhas expectativas em relação a si foram aumentando, sem nunca lhe dar a entender isso, mas agora chegou o momento. Eu recebi uma proposta enorme do Brasil, de uns companheiros de batalhas antigas, para lhes fazer a gestão financeira de uma empresa de construção. Eles saíram de cá há uns 5 ou 6 anos, estão bem por lá, e nem por isso se esqueceram de mim. Ligaram-me e querem que vá para lá, a tempo inteiro.

– Bem, Sr. Baptista, deve estar felicíssimo! Muitos parabéns. – Estava incrédulo e genuinamente satisfeito pelo seu fiel chefe.

– Sinto-me reconhecido e incapaz de recusar esta oferta. – Afirmava com uma cara pensativa. – Mas é aí mesmo que você entra, Nuno. O meu problema, que acredito acabará por não o ser, é o facto de eu ter a minha vida investida neste gabinetezinho, onde tenho sido tão feliz. Não me sinto capaz de me livrar dele, mesmo sabendo que só passarei cá dois meses por ano. Assim, o que gostava de lhe propor era que se tornasse a minha pessoa aqui dentro, que levasse avante, como sempre o fez, o nosso trabalho. Antes que fale da Andreia, posso garantir-lhe que já falei com ela e ela não se opôs em nada a trabalhar sobre o seu leme. Pelo contrário, aliás, ela reconhece-lhe a qualidade.

O Nuno ficou completamente liquefeito, esvaziou-se como uma poça de água pelo chão. Não era só a proposta do Sr. Baptista, era também o atestar da sua qualidade pela Andreia, que já se encontrava a trabalhar lá muito antes de ele chegar. Tudo o que se tinha desmoronado no amor subia agora em flecha, como um novo muro de Berlim, em perspectivas de futuro. Ele não se conteve e aclamou felicidade com um enorme aperto-de-mão de compromisso, de agradecimento, de felicidade. Porém, logo caiu numa emboscada: o pensamento levou-o à Marta, que em tempos exaltaria com esta notícia. Porra, do que me havia de lembrar. Fintou essa saudade e mágoa, com um telefonema aos pais. Não existem seres no mundo mais capazes de nos fazer tocar o pináculo, os pais do Nuno não eram excepção. Algum tempo depois já estava com uma roupa mais prática, na sede do grupo de carnaval. Sem explicar o porquê, pagou uma rodada. Todos brindaram ao Nuno, sem saber que as garrafas tlintavam o futuro. Já tinha falado com o João e o Diogo, as coisas não pareciam tão más agora. Afinal, o dia corria-lhe bem.

Nuno Martins – 17h35

Olá, Ana. Desculpa só responder agora, já estava a dormir quando enviaste a mensagem e tive uma reunião hoje, não consegui antes. Claro que não me importo, aproveito é para te agradecer a simpatia e disponibilidade. Que a noite de hoje seja melhor que a de ontem 🙂 Beijinhos

Caramba, ele estava confiante e isso notava-se na mensagem. Assim continuou pela sede, com o trabalho quase finalizado, ia dando umas pinceladas de cola e uns goles de cerveja. As conversas escorriam por aquela sala vestida de animação, ninguém vivia problemas ali. Sítio mais perfeito não podia existir! Foi novamente a casa vestir o fato do ano anterior, para regressar à sede e jantar por lá mesmo. Todos juntos a assar umas fêveras, a beber umas minis, a brincar com os mais recentemente chegados e a serem felizes. Era só isso que ele agora desejava ser: feliz.

As estrelas eram o candeeiro perfeito daquele luau carnavalesco, as conversas fluíam com a naturalidade de quem está a viver os dias mais desejados do ano. O álcool, um pouquinho exagerado, entrava pelo corpo do Nuno de forma diferente. O que ontem lhe dava de áspero, hoje oferecia-lhe de galante. Parecia estar a consumir garrafas de alegria em estado líquido. Estava contagiado e a contagiar. Isto prometia e os outros amigos também já lhe ligavam, com mais incidência no Diogo. Ou não fosse um folião o ano todo. Passa cá, disse-lhe o Nuno e ele foi. Era só mais um condimento para aquele cozinhado de noite incrível.

Algum tempo depois estavam a descer para o fulcro da festa, cantando pelas ruas inebriadas de pessoas, saltando em conjunto e impelindo os outros a entrarem nos ritmos carnavalescos. Olha a cabeleira do Zézé/ será que ele é/ será que ele é, era um dos muito clássicos que aqueles trinta homens iam cantando, ofegantes de folia e com sopro de euforia. Na descida para o centro da cidade, junto ao mercado municipal apanharam o João e o Carlitos, que vinham da tenda que ombreava concertos e votações, do outro lado da rua. O Carlitos já dava mostras que hoje não seria muito melhor que ontem, abraçou talvez metade, daqueles trinta eclécticos carnavalescos, como se os conhecesse desde sempre. O João também já vinha aceso.

Mal se pararam pela praça das galinhas, com uma tenda a soltar um house music, bem misturado a sons brasileiros e com alguns toques de música da terra, com pevides, o Nuno viu a Ana. Dirigiu-se logo a ela e falaram durante largos minutos, ora um ao ouvido ora outro ao ouvido. Contrariavam, assim, o eco forte das colunas e aproximavam as dermes até ao toque. De repente o Nuno voltou a juntar-se ao grupo e na fila da frente saltaram como doidos, elevavam os casacos e chapéus, deixavam cair os óculos e cigarros, mas a estampa do sorriso era o que mais se destacava. A Ana já não fugia muito daquela zona, com as amigas – trocavam, a miúde, olhares e espontâneos passos de dança. Enquanto o Diogo se esfumava na confusão, com a borboleta que já se tinha metamorfoseado em Lara Croft. Não muda aquele gajo, diziam divertidos. O Nuno e o João, claro.

Já o dia tinha subido sob a cidade, os copos plásticos estatelados e a rugir as passadas dos transeuntes entusiásticos, os primeiros varredores a sofreram a intrepidez dos resistentes noctívagos, as cantorias a assobiarem pelas janelas dos dorminhocos da urbe. E a pastelaria cheia. Não há prolongamento nocturno que não aliene a fome. Na pastelaria o Diogo estava de regresso e o João continuava na companhia do Nuno e de uns 5 ou 6 do grupo. Entrou a Ana e o olhar do Nuno franziu-se, mesmo sabendo que ela vinha em resposta a uma mensagem sua. Estou na pastelaria e adorava fazer-te companhia a casa, teclou ele, com a certeza que por sms é mais fácil vestir a coragem. Assim aconteceu, ele foi levá-la, para regozijo dos amigos. Todavia, a viagem não seria longa, pois tinha que estar na sede para levar o carro até ao local do desfile.  Foi e veio num espaço de hora. Já sem o João e o Diogo, alguns mais ávidos provocaram-no.

– Já pintou, companheiro. – Dizia um dos elementos do grupo, a piscar o olho desafiante.

– Sou um cavalheiro, amigo, isso fica para mim. – Respondia com um sorriso resplandecente, que há algum tempo não se via nele.

Com isto iam-se esfumarando as horas e o carro alegórico estava no destino, na partida de amanhã. O almoço ainda escorria com vinho verde, todos juntos. No Nuno e mais alguns já os olhos ganhavam vida própria e fechavam-se. Estava aí a primeira loucura de Carnaval, faziam-se 28 horas da alvorava.

Regressado a casa, a rotina do costume: roupa para o sofá; peso do corpo para ali mesmo; e o Iphone a tocar. Amanhã temos o Presente Carnavalesco (Ep4). Até já.

PS – Saibam mais sobre o livro que lançarei, o ReALidades. Para isso, basta clicarem neste destacado: Livro – Ricardo Alves Lopes (Ral)

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s