Presente Carnavalesco (Ep2)

Saiu do banho e entrou numas calças xadrez, vermelhas e amarelas. Em cima pôs uma camisa verde e uma gravata agigantada de cores várias, como coberto usou o casaco do grupo – que agora não vem ao caso qual era. Uns óculos estilo matrix deram-lhe o toque que faltava. O cabelo saiu bem ao seu estilo, revolto e desajeitado. A barba por desfazer e os olhos ramelados. Pegou no maço de cigarros, num porta-moedas com umas notas, sorriu para o espelho e despediu-se de casa com um olhar esguio para trás, a confirmar se as luzes estavam desligadas, se não tinha deixado nada pousado que lhe fosse fazer falta. Assim partiu, deixando a casa empoeirada, a chorar as saudades da Marta.

Lá estavam eles, o João, o Diogo, o Carlitos, o Tiago e o Martim. Já estavam a enlaçar uns Martinis, com pessoas em abundância a florir a área circundante. A adega era o aquecimento ideal, ainda não eram oito da noite e já se empolavam euforias.

– Como é, bro? Anda-te embora. – Exclamava, já açodado, o Carlitos. O Nuno, acabado de chegar, respondia com um sorriso e caminhava para o balcão a decidir qual era o seu espaço, quem devia cumprimentar. Não foi preciso grande coisa, dois abraços e um Martini à frente.

Algum tempo depois, sentaram-se numa mesa, chegada à lareira e deixaram as suas conversas crepitarem tanto como as centelhas. A madeira ardia em postas e eles escaldavam-se por dentro, com tinto da casa e receita universal. Os pratos levavam comida para trás, restos de carne que já não passavam, conquanto o aveludado do vinho, ou adocicado da fórmula, fazia estrago. Já estavam todos no espaço ermo para fumo. O Diogo já mandava charme em cima de uma borboleta, literalmente. Aqueles olhos azuis ajudavam-no nestas coisas, não obstante do cavalheirismo das suas palavras medidas e calculadas. Bem como interesseiras, diga-se. O Tiago e o Martim mandavam mensagens e telefonavam às namoradas, não seguindo obrigatoriamente esta ordem. O Carlitos já estava embebido numa vinha que era difícil acompanhar, ou sequer perceber. Sobrava o João, que logo tratava de estragar tudo.

– E então, Nuninho? Já passaram essas dores de cabeça, por causa da Marta? Ela não merece. – Dizia aquilo sincero, é verdade, no entanto mais do que isso destacava-se os lábios escurecidos do vinho e as palavras presas nuns elásticos que as prolongavam e enrolavam.

– Oh, João, não é altura para falar disso. Está tudo bem, eu já sei que ela está com o artista do Pedro, que faça o que entender. – Transmitia, o Nuno, mais para si do que para o João. Com os lábios em forma de “s”. – Ela já é grandinha, depois que se arrependa.

– Sabes que mais? Que se foda, é carnaval. Vamos mandar um penalti. – Estendia o copo ao alto,  passando velozmente para uma euforia desmesurada. Até serem interrompidos.

– Não há espaço para nós, nesse brinde? – Perguntava a Ana, com a sua mini-saia imperceptível. Que lhe ficava bem não havia dúvidas, só não se percebia o disfarce. Mas também aquele xadrez do Nuno, ou aquele macacão do João não eram exemplo.

– Claro que há, Aninha. – Respondia o João, com um rasgão esbranquiçado de orelha a orelha. – Para ti e para a Cláudia!

Brindaram e trocaram algumas palavras, com trivialidades fervorosas. Enquanto o Tiago e o Martim, já se juntavam novamente.

– Bem, vamos indo para dentro, ter com elas à mesa. Ainda nos vemos, meninos. – Afirmava a Cláudia, enquanto lhes piscava o olho.

Eles continuaram por lá, de novo todos juntos a beber mais um vinho, a tomar um café e a jogar conversa fora. Depois decidiram subir a ruazinha e espreitar o Quim. A praça estava com um entrelaçado humano capaz tecer uma carpete daqui a Lisboa, era impossível furar. Deixaram-se ficar entremeados entre a viela e a praça, com as pessoas a passarem, com o carnaval a cair do céu sobre as suas cabeças. Cumprimentavam os conhecidos e os desconhecidos, metiam conversa pelo simples prazer de se divertirem – porque no carnaval ninguém leva a mal. Volta e meia o Nuno era assomado de um escombro de saudade, mas as garrafas de plástico com anestesia em estado liquido e a euforia dos amigos puxavam-no de volta. A noite já ia longa e contrafeito, o senhor do bigode, calou o acordeão e despediu-se com um: até para o ano, carnaval de Ovar. Eles seguiram viela abaixo, passaram a adega que continuava em festa e foram para o barzinho verde a seguir. Lá, como no mundo ovarense, estava uma loucura só comparável ao apocalipse. Entraram, beberam shots, cumprimentaram e meteram conversa com umas jovens, claramente vindas de outras paragens. Quando se aperceberam, em plena pista, desenrolava-se um jogo de basket, com cinco para cinco, contudo sem árbitros e com as bolas trocadas por músicas e os lançamentos por passos de danças desconexos e atrevidos. Valia tudo, o carnaval já andava a pular em cada rosto. O Carlitos começava a dar sinais que a noite dele estava a cair, pela mesma caneja em que tinha deixado o último copo. O Martim ofereceu-se para o levar, ia trabalhar de manhã cedo. Juntava-se o útil ao, suposto, agradável. Estava tudo tão bom, tão quente.

– Diz-me lá como te chamas! – Exclamava o Nuno, já sem os óculos do matrix, que tinha perdido, e com a voz tão áspera como as pedras do alcatrão velho da rua.

– Sou a Rita, Nuno. – Fitava-o com o olhar, enquanto ele se arregalava para ela. – Não, não fiques com essa cara de importante, ouvi o teu amigo a chamar-te. – Porra, pensou ele. Chegou a sentir-se importante. Ainda assim, tudo corria bem e ele estava feliz, longe de coisas más e a divertir-se.

De repente, num milésimo de segundo, tudo mudou. Entrou uma faca laminada e apontada ao Nuno, que lhe cortou o peito ao meio, que abriu um lanho de sangue assustador. Não foi nenhum dos mauzões que por aí andam, foi simplesmente a Marta abraçada ao Pedro.

– Não me acredito que ela anda por aqui! – Atirou o Nuno, atónico e sem pensar que devia mostrar indiferença.

– Mano, olha para mim, estás com essa miúda e vais ignorar. Esse filme já passou e só a vais deixar toda relevante e emproada, se ficares aí preocupado e sempre a olhar. – Asseverava o Diogo, segurando o Nuno pelos ombros.

– Eu sei, eu sei, tens razão. Vou esquecer isto, já passou. – No instante que acenava que sim com a cabeça, ao Diogo, espreitava-lhe por cima do ombro e via-a de costas e ao Pedro a enviar um olhar provocador, com um sorriso embutido. – Eu ainda fodo aquele palhaço.

– Então, então, como é? Estamos aqui para curtir. Vamos é para outro sítio, que se lixe. – Afirmava o Tiago, com a concordância do João e Diogo.

– Não vale a pena, a sério. Estão aqui estas miúdas muito fixes e simpáticas. Só temos que ficar. – Dizia, com dificuldade em tirar o olhar do Pedro e da Marta.

– Olha, nisso é que estou de acordo contigo. – Transmitia o Diogo, divertido e a sorrir, com aqueles olhos azuis e jeito galifão. – Agora a sério, só se estiveres mesmo bem.

– Obrigado, mano. Estou mesmo. – Proferia cordialmente, mas com uma expressão indecifrável. Nesse instante chegou-se o João e abraçou-o.

– Já sabes, é só dizeres e vamos embora.

Eles ficaram e voltaram às suas companhias, femininas. O Tiago menos, mantinha conversa cordial e pontualmente deixava o álcool empurrá-lo para a dança, porém no fim procurava sempre homens conhecidos para se manter em conversas, já sem sentido. A Marta e o Pedro lá se mantinham, dando a sensação que ela evitava virar-se na direcção do balcão. O Nuno já estava ao balcão a beber um shot, colorido e inflamado, com a Rita. Ela sorria, divertida com a companhia, no entanto ele ia viajando longe, longe, sentia-se a perder o controlo , por entre os dedos. Ela apercebia-se do naufrágio e aos poucos ia-se afastando. Ele estava a beber desenfreado e com a cara completamente fechada, sisuda e feia, raivosa. Foi à casa de banho e começou a chorar como um bebé, soluçando e perguntando-se porquê, porquê ele. Por muito que já soubesse o que se passava, vê-los juntos foi uma facada demasiado forte e dura. Doeu muito.

– Amigos, não me levem a mal, tenho que ir. – Já desconexo nas palavras, bebido a vinho, a whisky e gin.

– Nem penses, vamos para outro sítio. Embora não vais! – Afirmava, autoritário, o Diogo.

– Não é só isso, amanhã trabalho. E isto já não está fácil. – Disse com um sorriso tímido e a cair das pernas.

– Vá, eu levo-o a casa. Aproveito e também vou. Um abraço, malta. – Disse o Tiago e abraçaram-se todos.

Saíram a palmilhar caminho, com passos pouco assertivos e cambaleantes. Trocando ideias, filosofias de algibeira. Assim fizeram os parcos cinco minutos de caminho, até casa do Nuno. Ele ofereceu-se para fazer o resto da viagem com o Tiago, até casa dele. Mas o amigo rejeitou. Então entrou, fechou os olhos logo no hall e puxou o ar com força, como tentando recuperar a assunção do que se passava com a sua vida. Do que tinha sido esta noite. Nesse instante treme-lhe a perna e ouve um ligeiro barulho, como um bater à porta. Era o Iphone a receber uma sms.

Amanhã descobriremos quem era, no Presente Carnavalesco (Ep3). Até já.

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