Presente Carnavalesco (Ep1)

Lá estava ele, sentado na sua secretária comprida, envolvido por algumas folhas brancas, canetas pousadas, o computador aberto no excel e os pensamentos bem longe. Levantou-se, com o café no copinho plástico e foi para a janela olhar a bela cidade de Ovar. Lá em baixo já se via uma agitação, pouco normal destes dias cinzentos, mas muito comum nesta época que hoje se inicia. É quinta-feira e daqui a algumas horas o Quim Barreiros vai abrir as hostes, no coreto improvisado da Vereda, que fica mais tropical que nunca.

Trabalha num pequeno gabinete de contabilidade, faz no mês que a seguir irrompe 2 anos. Tem sido feliz por ali, com um escritório só para ele. Pequenino, é verdade, mas com uma janela que lhe ornamenta a visão com o rio Cáster, com os patos e o jardim dos velhinhos e novos. Tem sido feliz, só não se concentra nestes últimos dois meses. Passa horas e horas na varanda a fumar, a choramingar nas suas fugidas ao facebook e a pensar na Marta. Namoraram 6 anos e de repente ela acabou com ele, para apenas um mês depois disso se jogar nos braços do Pedro. Não dá para perceber, ele é mais novo, só se interessa por umas drogas leves e umas copadas valentes. E ele que sempre se esfalfou, que lhe deu tudo o que tinha para apoiá-la nesta batalha horrível do desemprego, estava agora arremessado ao vento. E ele vinha em nortadas.

– Bom dia, Nuno. Está bom? – Tinha acabado de chegar o patrão, o Sr. Baptista.

– Ah, desculpe, nem o tinha visto. Tudo óptimo e consigo? – Respondia numa viragem rápida do corpo para a entrada, meio aturdido.

– Também. Diga-me uma coisa, já tem o relatório da Soveco pronto?

– Hum, a verdade é que ainda não. – Exclamava o Nuno, não escondendo o constrangimento. – Só lhe conseguirei entregar hoje, da parte da tarde.

– Não sei o que se passa consigo, rapaz. Espero que esteja tudo bem, por muito que desconfie que não seja assim. – Retorquia o patrão, subindo ligeiramente o lábio do lado esquerdo e semicerrando o olhar. – Sabe que está à-vontade para falar comigo, seja de trabalho ou da vida, Nuno. Já convivemos há dois anos, não são dois dias.

– Sr. Baptista, agradeço imenso a simpatia, mas está tudo bem. Hoje, sem falta, entrego-lhe o relatório da Soveco. – Assegurava, com um olhar tenso e na procura de eliminar ali a conversa.

– Estarei à espera, então, Nuno.

Assim que a porta bateu, soltou um foda-se e foi para a varanda fumar mais um cigarro, agora a correr. Voltou ávido para o computador, não podia falhar com o Sr. Baptista. Era chefe, mas realmente vinha sendo mais que isso, a disponibilidade dele era incomum em tantos patrões que por aí se vêem. E conseguiu, às 15h lá estava o relatório e o cumprimento de congratulação.

– Você é bom nisto, Nuno. – Dizia o patrão, escondido atrás de um enorme sorriso e encostado para trás na sua poltrona giratória. – Tire lá o resto do dia para si, que daqui a pouco é Carnaval. Amanhã venha só da parte da tarde, porque preciso mesmo de si, ok?

– Combinado e muito obrigado, Sr. Baptista. – Dizia com genuíno agradecimento o Nuno, não escondendo o alegramento de já se ir aprontar para a noite de hoje.

Desceu o elevador a sorrir e a teclar sms’s para acordar a noite que aí vinha. Num instante, combinou jantar pela rústica e aprazível adega social, com cinco amigos. Agora era escolher o disfarce, a roupa colorida, ou o melhor sorriso. Não era dia para pensar na Marta, isso ele sabia. Eram 15h e morava logo ali no Jardim dos Campos, nesse meio caminho viu a Praça das Galinhas, com o seu jeito redondo, com os bares em bica e uma tenda a levantar-se, e não resistiu a ir beber uma cerveja e perceber a folia a crescer. Encostado ao balcão, ligou para um dos do grupo carnavalesco, como esperava, tinha que ir dar uns arranjos agora se queria a noite livre. Assim fez.

Mal chegou, lá estavam novos e velhos, com fatos de macaco, jalecas desusadas e calças rasgadas, embalados pelo barulho de berbequins e sopros de sprays, ou desenrolares de trinchas, a pintar os últimos detalhes dos carros. Assistiam-se também a alguns apoios, com os casacos dos respectivos grupos, a emborcar minis com afinco e a soltar bacoradas saudáveis. Esteve nisto até às 18h, por vezes a labutar por vezes a salutar.  Depois seguiu para casa num voo e meteu-se no banho. O jantar estava a chegar e amanhã saberemos como foi a noite, com o “Presente Carnavalesco (Ep 2)”. Até já.

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