Entrevista de trabalho

As portas abriram-se e ele entrou. Com vagareza, com os passos lentos a observar tudo o que fazia ornamento, a perceber as expressões dos corrupios, mas sempre concentrado. Centrado num futuro que se podia desenhar ali.

As entrevistas de trabalho alçam sempre um nervoso miudinho, um corriqueiro palmilhar de formigueiros pelo correr das veias. O estômago aperta-se e ao mesmo tempo agiganta-se, parece que o nosso interior não vai conseguir segurar toda aquela exacerbação dentro de si. Pensa-se sempre que aquilo pode mudar a nossa vida, que lhe dará um rumo diferente do que tínhamos tido até ali. Se melhor se pior, o tempo dirá, contudo naquela hora só tem sentido pensar na valentia de ali estarmos, nas alegrias que aquelas paredes ainda tão desconhecidas podem trazer e acolher.

Os sítios parecem tão aconchegantes e tão indiferentes. Não sentimos ali identificação e ao mesmo tempo acreditamos que podemos fazer daquilo os nossos dias, as nossas ombreiras. Finalmente vem uma voz feminina, com mel, que nos chama pelo nome e nos traz a primeira sensação de pessoalização. Já não somos tão estranhos ao espaço. Entramos numa sala, de reuniões ou com secretária, e ali ficamos, de frente para engravatados ou arranjadas, que podem definir o nosso futuro com rascunhos de caneta, em folhas brancas. Aquilo mexe connosco e dispara as pulsações para voltagens de motores ferozes, mas tentamos articular as frases com um certo charme e um conhecimento que convém seja sempre patente. As primeiras perguntas agarram-nos por respostas secas e concisas, conquanto as notas vão-se acelerando do outro lado da mesa – e não nos deixam esquecer onde estamos. Contudo, o tempo vai-se diluindo e sentimos aquele colete a cair-nos pelo corpo e a conversa a desenrolar-se com mais leveza, ou pelo menos mais desamarrada. Já nos custa mais é falar sem levantar o véu e nos deixar ali despidos, no meio daquela sala que acreditamos pode fazer parte dos nossos dias.

Saímos porta fora e acendemos o cigarro, respiramos fundo num suspiro, ou ligamos a quem nos é próximo, ou vamos para o carro para fazer tudo isso de assentada. E aí é esperar, aguardar com sôfrega ânsia que o telefone toque ou e-mail apite. A entrevista está feita.

PS – Não se esqueçam, caso tenham curiosidade de saber mais detalhes sobre o livro que lançarei, lá para meados de Novembro, basta clicarem neste destacado: Livro – Ricardo Alves Lopes (Ral)

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2 thoughts on “Entrevista de trabalho

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