Amigo até à morte

Empolavam-se as folhas no ar, o outono caía ríspido e forte. Vinha encruzilhado, por entre ardores de verão e descasques de inverno. E ele suprimia-se na sua eira, sem vegetação ou labor, só a sentir os dias a amontoarem-se em cima das suas marinhas.

Era uma pessoa tão triste, o semblante carregava guerras mundiais e atrozes ataques, onzes de Setembro e Março. Desde os principados, da existência, que parecia que as desgraças se aglutinavam em si. Fortes e ofensivas, sempre opulentas, a desvanecerem-se como lágrimas do céu em cima de um único ser. Em cima do Edmundo. Era capricho do destino, o mundo caber inteiro no seu nome.

Era amorfo e acorrentado em histórias dele, não existia partilha e as palavras eram parcas, como os condimentos em África, revestia-se apenas, e pontualmente, de uns sorrisos de assentamento, no cafezito do Delfim. O Delfim era o oposto, um velhote para a frente, cheio de vida para afoguear os catraios e prender por horas os seus netos. Ele tinha um magnetismo louco para aqueles miúdos, queriam passar férias, fins-de-semana, feriados e folgas sempre na companhia do Delfim. Na ginga daquela cintura estreita, no correr daquele corpo esgazeado, no volume daquele comprido cabelo branco, penteado ao lado, que enfeitavam uma cara sorridente e comida pelos anos de luz e chuva, de sol e mar. A voz rouca doutrinava a atenção dos miúdos, como se a campainha da escola soasse, como se o apito do árbitro assobiasse. As histórias sucediam-se como recados do rei, sempre a desenrolarem-se. Sempre emanadas em lumes brandos, de um fumo branco que expelia ora pelas narinas, ora pela boca, com visível prazer. O velhote era cativante, cheio de maus vícios, mas com umas flechas de precisão, que tocavam sempre as maças de quem se concentra.

O Delfim e o Edmundo eram unidos por uma ancestralidade, obsoleta nos dias que correm. Procriavam-se pela vida desde a meninice. Labutaram, desde cedo, em baldios com encinhos e foices, brincaram bolas de pano contra paredes hoje caídas e combateram juntos no Ultramar, na África profunda. Partiram e retornaram juntos, com as bombas a eclodir nos ouvidos, com os gemidos de morte a germinarem-se nos sonos profundos, contudo vivos. Delfim esfalfou-se e libertou-se das minas, dos tiros certeiros e entregou-se numa vida de sorriso sobreposto, de amor vindouro e de procriação famigerada pela graciosidade de traços. Conquanto o Edmundo se enterrou, no frio da terra, quando chegou à pequenez da pacata vila, por entre escombros de guerrilhas, viu a maior perda na sua terra natal. Voltado e em busca do seu grande amor, ausente de cartas fazia meses, percebeu que a guerra da saúde lhe tinha ceifado o seu cosmos de existência. A sua Adosinda tinha sido raptada do mundo, de céu azul, que o devia acolher. Uma pneumonia ofensiva indagou pelo seu corpo e rapou-lhe as forças, levou-a para uma campa que se tornaria o abrigo do Edmundo. Ficou cinzento, sem chama, nem ardor, e desde aí se prolongou pela vida, movido pela cobardia de não conseguir reagir. Sentia-se culpado se o sorriso lhe fugia, sentia-se inocente se as lagrimas lhe derramavam sangue pelos cocurutos do rosto. Foram cinquenta anos, infligido neste sôfrego afago de desistência, que ignorava as investidas corriqueiras e alegres do amigo Delfim.

Um dia, o amigo disse basta. Solto da responsabilidade de criar filhos, infeliz da partida do seu amor, pegou em dinheiro, fechou o seu café e partiu, algemado ao Edmundo. Apenas lhe disse:

– Hoje recomeçamos! Se nascemos juntos, se vivemos juntos, partiremos juntos, morreremos juntos. Desta terra, que te comeu vivo, levarás a lembrança de uma vida que te enrijeceu a força de hoje vencer. Nunca é tarde, Edmundo. Nunca. Sou teu amigo até à morte.

   PS – Não se esqueçam, caso tenham curiosidade de saber mais detalhes sobre o livro que lançarei, lá para meados de Novembro, basta clicarem neste destacado: Livro – Ricardo Alves Lopes (Ral)

A foto é retirada da net, sem qualquer tipo de associação directa da pessoa ao texto ficcionado.

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