Descampado na cidade

Amar é dizer e fazer amor. É sentir amor. Ele vive de arritmias, fortes e bruscas; tranquilas e apelativas. Amar é amar, não é explicar.

Ama-se uma vez e nunca mais se esquece, ama-se para sempre e nunca mais se lembra. É complicado girar numa ventoinha tola, que não para de vociferar vidas. Temos que ligar as peças e desmontar os pensamentos turvos de água canalizada. Não precisamos dos fatos-macacos e das caixas de ferramentas, necessitamos é da limpeza audaz, para a frieza de pensamento. É mais fácil amar e não pensar, do que pensar enquanto se ama. Baralha. Faz-nos tolos.

Eu sou tolo e sei, conquanto não consigo deixar de ser. Que treta. Gosto de amar, como gosto de ser amado e acariciado; como gosto de respirar e viver com o sorriso a limitar o céu colado ao meu mar. Eu sou uma espécie de descampado caído no meio da cidade, não se percebe, não se alimenta e isola-se na estranheza, com cadeados e gradeamentos velhos, em volta. Instiga curiosidade, mas mata a vontade no trabalho, que à partida mostra, para revitalização. Para lhe oferecer uma vida. Já me nascem plantas velhas, com castanhos caídos de ferrugem. Devia ser enquadrado e alinhado pelo planeamento municipal, pela main-stream, mas teimosamente mantenho-me numas vielas secundárias, a construir uma cidade diferente… com ervas, daninhas e belas, com areias em cima de alcatrões, com redes e seguranças, de cães vadios. Eles gostam da minha heresia, da forma como esculpo o meu mundo no meio de outros. Eles não pensam tanto como nós, talvez por isso gostem de mim. Os opostos magnetizam-se, como os ímanes se atraem pelo frigorífico.

Os pedintes procuram-me, não para labutar a riqueza que não tenho, só na busca do aconchego fugaz da citadina vida de olhares travessos; na busca da cadência dos sonos. Eles são espasmos de uma cidade feita de construções enraizadas e padronizadas. Se um prédio cresce para os 10 andares, o seguinte abaixo de 11 será uma anedota, uma piada de um arquitectozito corriqueiro. Já o meu deserto é aprazível para eles, os cães não julgam, as ervas aconchegam, o vazio afaga. Sou um harém de vidas que nunca viveram, mas que todos os dias vêm.

Eu sei, qualquer dia chegará um construtor em contraciclo, um empreiteiro desafiador, e eu passarei a ter vivendas e varandas, conhecerei moradores e terei espaço no mapa da cidade. Até lá sou uma rua vazia, um quarteirão ardente de folhas, sem eira nem beira.

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