Quadros Expostos

Disponibilizo, via blogue, o texto que escrevei para a minha intervenção de ontem, no IPAM Aveiro. Foi um prazer estar entre tantas pessoas de valor, a divulgar o meu livro.

A chuva batia forte, relampejava nos estores e fluía pelas canejas. Ela estava feroz, como raramente se via. A luz ia piscando, apagando por breves instantes, com pequenos estalidos dos contadores e interruptores. O vento, esse, fazia-se ouvir com voracidade, capaz de assustar os bebés pequeninos e as mães que os queriam fazer nascer. Mas a verdade é que a minha conseguiu. Inspirou, expirou, suspirou, apertou os lençóis, gritou pelo pai, pela mãe, pelo marido, mas, no fim de contas, eu nasci. Era dia 15 de Outubro, corria o ano de 1987 e estava perpetuado um amor, em forma de pessoa.

É verdade, nasci num dia de temporal. Qual o significado que isso tem tido na minha vida é difícil apontar, contudo sei uma coisa: sou furioso. Sequioso de viver mais e mais, de experimentar mais e mais. Não gosto de definir fronteiras, elas são uma invenção parva que limita, que define trilhos que nos impõem regras. Eu vivo sem fronteiras, num mundo aberto ao céu, onde cabe o mar e o sol. Sou feliz assim e tento arrastar no conglutinoso da minha existência todos os que me rodeiam, todos os que amo mais e menos, todos o que um dia amei e todos os que um dia irei amar. Sou homem de uma mulher só, mas de coração repartido por todas as pessoas que me fazem melhor, que me fazem ser mais quem sou. Existem pessoas aqui dentro, nesta universidade, que alguns de vocês começarão a conhecer melhor, que me deram isso, que levarei para toda a vida.

Porém, esta universidade, estes corredores vestidos de criatividade, não me deram somente amizades, deram-me valências, aleluias que hoje uso nas prezes do meu futuro. Para além da veemência com que nos incitam a sermos acima de tudo nós, fazem-nos crer que o futuro não é do desconhecido, que o podemos prever, que o podemos desenhar. Imaginam, assim, os que agora aqui entram, o tamanho poder que esta instituição vos entregará em mãos? Não o desperdicem, um papel e uma caneta que vos permite rasurar o passo seguinte é uma bênção, ao alcance de poucos. Vivemos dias difíceis, de uma austeridade agastada por coisas ruins, mas como se diz: em terra de cegos, quem tem olho é rei. Aqui não vos darão os olhos, garanto, no entanto certamente vos dirão como usá-los. E aí cabe a cada um de vocês.

Eu saí daqui licenciado, com os meus olhares reflectidos nesta bela ria de Aveiro, com o meu coração preso em amizades que perpetuarei para todo o sempre e com um emprego. Imaginam o regalo que isso é nos dias de hoje? Pois, todavia não me bastou. Agarrei com força no meu coração, prendi-o fortemente entre os dedos, e fui atrás de tudo o que mo fazia bater com força. Encontrei a escrita, este repasto em planícies dos deuses, que me faz viajar em vidas que não são minhas, em pessoas que crio e são fruto da minha existência, mas filhas de um desconhecido. Tornei-me poderoso, não pelo dom de fazer nascer e morrer quem quero, mas pela extensão que criei de mim numa paixão. Num sonho que se alonga por este vira-vento que é a vida.

O IPAM, esta universidade que agora estão a pisar, não me deu dinheiro para as mãos, não me empurrou à força para o sucesso, simplesmente adocicou palavras, apontou-me caminhos e disse: confiamos em ti. Eu também confio, mas se mais confiarem melhor. Muito melhor. Assim, aqui estou eu hoje a oferecer-vos uns pequeninos textos, que estarão editados, em conjunto com outros, no meu livro. Esse sairá, em princípio, em Novembro.

Para terminar este primeiro intervalo, digo-vos que peguem em canetas, façam rascunhos, trabalhem para que eles se tornem desenhos, que quando se aperceberem serão quadros expostos.

Viver vale a pena.

Ricardo Alves Lopes (RAL)
ricardoalopes.lopes@gmail.com

 PS – Não se esqueçam, caso tenham curiosidade de saber mais detalhes sobre o livro que lançarei, lá para meados de Novembro, basta clicarem neste destacado: Livro – Ricardo Alves Lopes (Ral)

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