Homem do poder

Ele gostava de sentar-se liquefeito, vazio de corpo, só entregue a pensamentos. O vento a harmonizar-lhe o rosto, a fazer-lhe arrepiar as auras de paz. Com uma quietude que as palavras não descrevem.

Ele não era pacífico, nem tampouco consensual, por isso atemorizava-se do seu fim. Tinha receio de uma morte precipitada, de um assalto de homens maus para lhe safanarem a vida, contudo não conseguia desviar-se dos seus objectivos. Ele tinha, e sempre teve, um rumo em mente, um caminho a ser palmilhado. O pináculo do sucesso, o cume da realização, era o destino.

Com 23 anos feitos, um canudo na mão, bem aventurou-se em entregas de currículos, em entrevistas furiosas, de quem não admitia deixar-se parar. Não foi difícil ter escolha, ele cativava. Fazia feliz os que o rodeavam, com bolas de fogo em forma de motivação. Rapidamente se altivou na sua carreira e nos ódios que alimentou.

Marcava a sua personalidade com uma bipolaridade, típica dos grandes líderes. Os bons, os que anuíam a perseverança, eram seus fiéis devotos, os restantes eram seus ferozes inimigos. Ele com cerca de 30 anos já levava uma bíblia de despedimentos nas suas costas, aos 40 já tinha afrontado todos os homens mais poderosos do país. Ele nasceu para ser ele, era impossível imaginá-lo outra pessoa, ou alguém igual a ele. A coragem, o armamento de argumentação, o jeito charmoso, os fatos impecavelmente bem vestidos, o cabelo delicadamente penteado, a barba de três dias, faziam dele um galã da gestão. O fato de bad-boy caia-lhe como uma luva. Elas adoravam.

Tinha chegado ao governo para liderar a economia, mas a sua maneira cáustica não permitia ficar-se por ali. Liderava a economia, opinava nas finanças, apontava o caminho na cultura, era exacerbante o seu savoir-faire. Era odiado, quase com a mesma força que admirado. Aquele jeito viril fazia dele um tecnocrata desprezível, um homem sem escrúpulos. Os seus temores, de morte precipitada, eram, afinal, fundamentados. À sua conta, milhares de pessoas passavam um mau bocado. Família no desemprego, sobrevalorização dos mais abonados, tudo nele era desprezível. Queriam mesmo matá-lo.

Um dia, pessoas obscuras decidiram por fim aquele martírio. Com sede de vingança, queriam roubar-lhe aquele sorriso altivo, destronar aquele boémio com vários casos conhecidos de prostituição. Seguiram-no desde o ministério, esperaram que estacionasse junto a um sotavento, com a falésia bem à sua frente, para colocarem um fim aquilo. Saíram disparados em direcção a ele, prontos para lhe ceifar a vida sem piedade, só com um empurrão, mas qual o espanto! Aquele bloco de aço, em forma de líder, estava num pranto a chorar as saudades da mulher que o havia abandonado na juventude. Mau, mau, é o diabo. Aquele era só um menino que não sabia lidar com a rejeição.

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