Como é bonito vê-la passear

Todos os dias ela serpenteava, por entre os amontoados de pessoas nos passeios, e desviava-se, com a delicadeza de uma princesa, dos carros que iam aparecendo. Transformava uma simples calçada numa passerelle.

Eu mantinha-me quieto, no cafezinho do canto, sempre a sonhar com o dia que lhe poderia dizer o quanto é bela. Perguntar-lhe ao ouvido, fazendo-a arrepiar-se com o veludo das minhas palavras, se teria alguém que diariamente a alimentasse de elogios; a fizesse lembrar do quanto é bela, do quanto pode fazer alguém feliz, com a sua simples presença. Não sei se poderei amar alguém que não conheço, sei, contudo, que posso idolatrar uma beleza tão concluída, tão detalhada, que me faz perder o norte. Naqueles instantes, da sua passagem, os meus segundos mediam-se pelos seus passos, os meus batimentos cardíacos pela sua respiração, no fundo, a minha vida entrelaçava-se na de uma pessoa que, apesar de real, era talvez o meu sonho mais distante.

Existia a doce Carla, não tão bela, não tão perfeita, mas tão mais interessada em mim. Todos os dias, sem excepção, aparecia a emanar simpatia, a adocicar palavras com boa disposição e, sem meios-termos, a sussurrar-me: «um dia serás meu, Pedro». Serei mesmo? Perguntava-lhe eu bem-disposto, sem dar a atenção devida, a tão intensas palavras. Ela rodeava-me de elogios, vincava que a sua presença não se devia ao meu péssimo serviço à mesa, somente ao meu belo olhar, à minha pureza que um dia faria alguém tão feliz.

O meu dia vivia dos ápices de interesse matinais: da bela passagem da desconhecida, que alegrava o meu dia; da boa disposição da Carla, que me lembrava que estava vivo. Todo o restante dia era um marasmo. Parecia que habitava num embuste feito pelos deuses da apatia.

Certo dia, entra a Carla diferente dos outros dias. «Não, Pedro, chega. Estou a apaixonar-me por outra pessoa. Nunca poderei ter de ti o que sonhei». Nunca a levei a sério quando dizia que me queria, porém a firmeza do afastamento doeu-me, como se vivêssemos em perfeita harmonia, numa relação de anos. Sentia um vazio, ainda que ela estivesse ali como todos os dias, que não fizéssemos mais que o que sempre fizemos: dividir o ar que respiramos, o espaço em que nos abrigamos.

Tudo mudou, com um toque nas costas.

– Desculpe, podia dizer-me onde é a máquina dos cigarros?

Que voz doce a tocar-me o pescoço, que dedos suaves a acariciarem-me o ombro. Virei-me, claro, e o chão saltou para um sítio onde não o podia ver, transferi a força das pernas para a veemente tremura da voz, para os suores da mão. Não podia ser, a bela rapariga hoje tinha entrado no meu espaço – mesmo não sendo dono dele.

– É, é, é, já, já, aquiiii – não me acredito que acabei de gaguejar como uma criança, quando se sufoca com o seu próprio choro.

Ela sorriu-me, com os seus olhos brilhantes, tocou-me levemente com a sua mão no meu braço e disse:

– Obrigado, menino simpático.

Os pedidos sucediam-se, mas para mim não eram mais que vozes longínquas, a Carla a dizer que não com a cabeça era uma sombra, da bela mulher a debruçar-se sobre a máquina do tabaco, a tirar os cigarros, fazendo de um gesto trivial uma autêntica obra de arte.

Á saída tocou-me novamente no ombro, encostou a sua face à minha e disse, com voz de anjo:

– Vem lá fora, preciso de dizer-te algo.

Sai, sem pensar em mais nada. Assim que a avistei na esquina dirigi-me a ela, ela empurrou-me contra a parede e disse:

– Todos os dias passo por aqui para sentir o desejo do teu olhar – beijou-me com uma incessante voluptuosidade, que me fazia planar sobre as nuvens.

É incrível como o tempo passa, já lá vão 20 anos.

– Pedro, anda-te embora, o jantar está pronto.

– Já vou, amor, já vou.

A bela mulher chamava-se Ana e traiu-me passadas duas semanas. A Carla? nunca deixou de me amar, até hoje. 20 anos depois, portanto.

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