Ricardo

Sou subjugado por uma estranha sensação cada vez que ouço chamar este nome, seja para mim ou não. É só uma codificação de letras para dar título a uma pessoa, neste caso a um texto, mas é o meu título, o meu nome. Leva-me a reagir, óbvio!

Não reajo de imediato com um sim, ou qualquer outra resposta verbal, reajo com pensamentos. Viajo pelo meu nome, não pelas letras, por quem sou. Faço uma usurpação da designação, como se ela fosse apenas minha, como se fizesse apenas sentido associá-la a mim. Ecoa inabitual chamar-me a mim, pelo meu nome, sinto-me a levitar para fora do meu corpo, a criar uma distância a que não estou habituado. Faço uma reflexão, quase exotérica, em alguns momentos.

Dou comigo a pensar como posso definir-me. É um tanto ou quanto antagónico, mas cada vez que digo que sou isto, isto e isto, sinto que isso é exactamente o que não sou. Não gosto de rótulos, isso vocês já sabem, porém acho que quanto mais dizemos tudo o que somos, mais nos distanciamos de ser isso mesmo. Eu sou humano e o ser-humano não é perfeito, é volátil, logo eu não posso definir-me em adjectivos. Como posso eu  dizer que sou simpático, se garantidamente já houve pessoas para quem fui antipático? Como posso dizer que sou bem-disposto e alegre, se tenho dias em que não me apetece falar com ninguém, estou desolado?

Eu sou humano, façam-me o favor de se lembrarem disso. Por isso não sou isto, nem tampouco aquilo, sou eu – por mais redutor que isso possa ser. Por vezes sou bom, por outras nem tanto, tenho dias de contágio de felicidade, outros que mais vale nem se chegarem a mim, existem dias que sou um exemplo, outros em que até devem desviar o olhar, quando se cruzam comigo. Sou eu, pouco mais há a dizer. Os que me conhecem, quem sabe, conseguirão definir-me em adjectivos, os que não me conhecem, por mais que eu me desmitificasse atrás deste texto em actos, adjectivos, ou ambos, nunca saberiam quem eu sou. Dessa forma, o que me levaria a tentar definir-me nisto e naquilo?

Mais curioso ainda, se eu me descrevesse por adjectivos lisonjeiros quem não me conhece iria pensar, «olha o convencido!». Se, por outro lado, optasse pelos inócuos iriam pensar, «oh, está a exagerar. Se ele fosse tão mau assim não admitia». Indo mais longe, escrevesse o que escrevesse, os que me conhecem iriam sempre ter uma imagem minha formatada, em nada a minha descrição iria alterar essa imagem!

Dessa forma, este texto define quem sou:

Ricardo, muito prazer!

2 thoughts on “Ricardo

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