Estrada da vida

Lá estamos nós a estudar o código, a prestar atenção a cada detalhe que nos parece fundamental. A primeira aula de condução não esconde algum nervosismo, mas o anseio de conduzir é maior. Temos carta, podemos guiar sem a supervisão de ninguém, finalmente!

Analogamente o código é a infância, as aulas de condução a pré-adolescência e na adolescência tornamo-nos encartados, ainda que com pouca experiência. Só queremos conduzir, claro!

Na minha infância ia embebendo tudo o que à minha volta se passava, era sôfrega a absorção de informação. Ainda que pouco consciente. Assim que cheguei à pré-adolescência já dava mostras de uma vontade própria, era avisado para o correcto, no entanto teimava em ter algumas incursões por desejos meus, por exemplos exteriores que começava a amealhar. «As duas mãos no volante, Ricardo!». Eu já via muitos a conduzir só com uma e tinha mais estilo, era mais arriscado. A loucura chegou na adolescência, com a carta. A carta era a idade, no BI, que ia avançando. Já pouco ligava ao que me transmitiam, eu já tinha ultrapassado as provas do código e condução. O que esperariam eles? Que voltasse a sentir que precisava de aulas?

Vivia com uma estranha sensação que o amanhã vinha muito longe, que faltava muito para chegar. Como quem conduz a grande velocidade a antever um congestionamento no Freixo. No fundo, ganhar tempo para os percalços. Sabia lá se depois de acabar os estudos ia ter tempo para ir a festas, para gastar tardes a jogar snooker e a beber minis.

Os primeiros meses de carta evitamos muita gente a acompanhar-nos, queremos liberdade para uns erros que imaginamos que podem acontecer. Ninguém gosta de deixar o carro ir abaixo com pessoas no carro, é um atestado de incompetência. Alguém gosta de se fazer acompanhar por supervisores em festas? Eu nunca levaria o instrutor de condução para uma rixa de carros.

Porém,tanto na condução como na vida, vamos ganhando experiência. Já temos arbítrio para sair acompanhados, será difícil deixar o carro ir abaixo. Hoje, gosto de levar o meu pai a ver o futebol ao bar que frequento. Até bebemos umas minis juntos, qual loucura, por vezes até pago. Raramente, contudo. Todos somos livres de demonstrar experiência desde o primeiro dia ou sentir sempre que andar sozinho é melhor.

Eu sou apologista de seguir todas as fases: código, condução, por fim, carta. No entanto, ainda é a jornada que me aventuro nos 180 – analogamente. A vida não espera, por vezes só para a frente é que é caminho.

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