Amar às metades

Temos ânsia de viver e com isso perdemos metades, que podiam fazer um todo bem mais rico. Como um destes dias vos confessava, muitas vezes quis estar em todo o lado, sem estar em lado nenhum. No fundo, dividia-me em prestações, em metades, e os juros disso eram caros. Eram e sempre serão. Perdia a metade do sítio onde estava, que podia ser a metade que faria daquele momento único; perdia a metade do sítio onde chegava, que tinha feito daquele momento especial. Vivi duas coisas, quando a maioria viveu uma. Quem me vai julgar?

Eu por diversas vezes digo e repito: não quero muito de nada, quero um bocadinho de tudo. Grande sábio o que um dia me ensinou esta frase. Porém, eu nem sempre a percebi bem. Muitas vezes a impingi, a mim, como uma frase fechada, como algo linear. Não é. Eu quero experienciar muito, quero experienciar o máximo – dentro do que me fascina – mas cada coisa na sua vez. As metades não são boas, devem é aguçar o apetite para os inteiros.

Estive na fronteira de Espanha, de França e da Alemanha.

Não conheci nenhum, tentei visitá-los todos no mesmo dia, que no dia seguinte já queria estar na América do Sul. Um amigo meu tirou uma semana só para conhecer Espanha, o espertalhão. Já eu tinha passado pela América do Sul, pelas fronteiras do Brasil, do Chile, da Argentina, do Peru, entre outras, e ele ainda estava em Espanha.

Quem ganhou?

Ele experienciou a Espanha. Ouviu o castelhano, o catalão e o basco, conheceu pessoas, associou sítios a caras, cheiros a paisagens. Eu vislumbrei, criei uma imagem mental de meio mundo.

Queres vir comigo a França, para a semana?

Disse que não, claro. Já lá estive, quero é ir a sítios diferentes. Ver coisas novas.

Ele foi a França, conheceu-a de lés a lés. Guardou um pedaço dela, dentro dele. E eu? Continuava a minha cruzada pelo diferente.

Um dia, bem longe, sentado numa esplanada com as bengalas pousadas, os cigarros acesos, os cálices de brandy cheios e os amigos de plateia, ele falou, falou e falou. Rendeu-os com as suas aventuras, com a sua paixão. Conhecia Espanha, França, Alemanha, Brasil, Argentina, Peru e Estados Unidos como a palma da mão.

Eu? Eu já tinha dado a volta ao globo e esgotei-me em uma hora de conversa. Seduzi e fui seduzido, mas nunca amei um país, nem deixei que ele me amasse. Foi tudo demasiado rápido.

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