Capas ao alto

Uma noite aprazível, de um calor ameno de verão; uns Xutos em constante regeneração, mantendo uma capacidade de ainda hoje surpreender; umas bengalas e cartolas, naturalmente, não deixando de lado os trajes dos que ainda vão a meio; e eu, eu e todos os que como eu procuram apenas diversão, ou o relembrar de outros tempos. Tempos próximos, bem próximos, mas já com marcas de saudade. Com cicatrizes de um tempo que não volta para trás.

O Porto nunca foi a minha cidade, nem de habitação nem de academia, mas teve sempre a estranha habilidade de me transmitir momentos de alienação, envoltos numa serenidade. Esta noite passada não me consentiu desvairos. Terminou na hora que tinha que terminar, sem muitos dos exageros que tanto me regularam. Hoje, nesta hora que vos lanço o texto, já trabalho há algum tempo. À noite estarei em outro sítio, onde passarei o fim-de-semana. Um dia longo, não pelas habituais 24 horas que o circunscrevem, mas pela quantidade de responsabilidades e sensações que trará a lume. Uns finos? Isso sim, ainda foi possível.

Dei por mim a observar, talvez pela primeira vez, o mar de gente que se juntava de frente para o palco. Palmas, bengalas e capas ao alto, telemóveis, máquinas fotográficas, trauteamentos conjuntos, saltos, gritos, tudo valia para mostrar a alegria. Talvez dos Xutos, talvez da vida de estudante.

– Ui, estou com a sensação que nunca tinha visto os Xutos!

E não, como desta vez não. Já perdi a conta aos concertos deles que fui, que passei em frente ao palco, que gritei as suas músicas, que saltei e pulei como se de coisas diferentes se tratasse, mas nunca, como ontem, lhes tinha prestado a devida atenção. Merecem a minha vénia, por toda a história que carregam naquela bateria, naqueles baixos, naqueles microfones e, naturalmente, naqueles corpos.

Findado o concerto, a habitual confusão entre barracas. Começo a ouvir a batida de Swedish House Mafia, que tem no refrão “o bacalhau quer alho!”. Foi a única coisa que sempre detestei na queima do Porto, o excesso de música provoca-me amnésia auditiva, desconcentra-me. No entanto, voltando a toda a envolvente, dois anos depois ainda não me senti excluído do que foram os meus anos de estudante, como já havia confirmado o ano passado e como espero confirmar para o próximo. Senti raiva de ter responsabilidades. Quem me conhece estará a rir-se, mas é verdade, amigos. Há testemunhas. Bebi com moderação, vim a tempo de dormir. Olha como eu cresci, como me estou a tornar um homenzinho.

Hoje escrevi-vos este texto com um pequenino copo de plástico, com café, ao meu lado. Agora vou fumar um cigarro, depois virei adiantar uns projectos. Assim que possível deixar-vos-ei este texto, organizar-me-ei para o que ainda tenho de responsabilidades à tarde, para depois seguir o caminho do fim-de-semana.

Podia chamar ao texto de hoje: diário de um menino crescido.

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