Entrega-te, Carlinhos!

Vivi toda a minha infância na penumbra de uma educação religiosa. A minha mãe, Manuela, era bastante severa no que toca a pecados. Cheguei aos meus 18 anos sem dizer um único palavrão. Talvez tenha dito, na genica dos meus pensamentos, na quietude do meu quarto. A vontade de infringir era imensa, mas o receio dela era maior. Podia castigar-me à séria.

Vivi toda a minha infância e adolescência numa pequenina aldeia, sem faltar a uma missa ao domingo de manhã, a uma aula de catequese ao sábado, a uma confissão à primeira quarta de cada mês, muito menos a um dia de escola, tampouco a uma aula. Entre a organização dos cadernos da escola, as habituais leituras da bíblia, os pequenos trabalhos da catequese, as visitas com a minha mãe a casa de amigas, companheiras de igreja, sobrava-me pouco tempo para seguir a juventude dos meus vizinhos, de idade análoga.

Aos 18 anos, foi com entusiasmo desmedido e difícil de encobrir, que vi num computador da escola que tinha entrado em Direito, em Coimbra. Naquele instante, tentei controlar o ímpeto de saltar, de gritar, pela desconfiança que vi nos olhos da Sra. Manuela, a minha mãe.

– Tens a certeza que é o melhor para ti, Carlinhos? Tenho receio que esses pecaminosos estraguem o trabalho que eu e o teu pai fizemos ao longo destes anos. Que desvirtuem a educação, de bons costumes, que te demos. Não te consigo imaginar a renderes-te aos pecados capitais, da droga e carnais, meu Carlinhos. Não vás, encontraremos um Seminário onde poderás seguir os teus estudos.

– Não, mãe. Se existiu algo que retive da vossa, excelente, educação foi a palavra do Senhor. Será ele quem me guiará nesta nova etapa, sempre com os vossos rostos presentes. Semanalmente farei os 600 quilómetros que nos separam para vos visitar, diariamente ligar-vos-ei para contar todo o meu dia. Podes estar descansada, minha mãe.

Durante um mês visitei-os semanalmente, após esse período tornou-se incomportável suportas as despesas do comboio e do autocarro, passou a uma vez por mês, até que por fim se resumia a uma vez por semestre. Nas férias de natal, da páscoa e de verão. As chamadas, nem sempre eram diárias, com a desculpa de muito trabalho. Que nem sempre tinha, contudo.

Durante esse período ia estreitando relações com o meu oposto. Alto, magro, olhos claros, um book feito para uma pequena agência, o cigarro como adorno do seu rosto, o gin como substituto da água, que não bebia nas longas horas de joão-pestana que fazia durante o dia, em contraste com o meu jeito sapudo e de menino certinho.

Tinha engraçado comigo num dia que eu com a minha avidez o tinha atropelado na fila para almoçar. Desde ai metia conversa comigo, nas raras vezes que ia à faculdade. Não hesitava em pedir-me as respostas nas frequências, em dizer-me: «És o maior, Carlinhos!». Estupidamente, eu sentia-me bem em ajudá-lo, ainda que condenasse na totalidade a sua conduta, fascinava-me. Para além de a sua companhia me dar uma visibilidade que nunca poderia conquistar por mim.

Nessas tardes, acompanhado por ele, comecei a falar com a Carla. Não era uma top-model, aliás era o oposto. Baixinha, um pouco forte, roliça, de cabelos lisos e sorriso espontâneo, com um tom um pouco exagerado. As suas gargalhadas propagavam-se à mesma velocidade que um boato. Mas havia algo nela que me estava a deixar loucamente apaixonado. Talvez fosse o simples facto de ser mulher.

O Pedro – era assim que se chamava o meu novo amigo – continuava a insistir comigo que eu tinha que ir com ele a um sítio. Um dia, fui. Sentámo-nos numas mesas redondas e ele pediu dois gins.  Engasguei-me ao primeiro gole, nem conseguia perceber se era doce, amargo ou azedo. Mulheres, loiras e morenas, brasileiras e russas, começaram a sentar-se à nossa volta.

– Escolhe uma. A Carla está doidinha por ti e tu não consegues avançar, por esse problema que já devias ter resolvida há anos – ele referia-se à virgindade, naturalmente – entrega-te, Carlinhos, entrega-te.

Escandalizado recusei veementemente, vezes sem fim, ao mesmo tempo que o obrigava a levar-me dali. Bebendo, sagazmente, daquele copo de gin que ele me havia oferecido. Embebedei-me, claro.

Uma mulher voluptuosa, loira, de pele acastanhada e sotaque brasileiro disse-me ao ouvido:

– Vem comigo, Cárlinhos!!

Não sei como, segui com ela. Subimos uma escada e entramos num quarto escuro, com uma colcha vermelha em cima da cama e uns espelhos como nunca antes havia visto. Ela exclamou, enquanto me apertava a coxa:

– Farei de ti um homenzinho, Cárlinhos!

A forma como ela acentuava o “a” de Carlinhos fazia-me viajar, dava-me um arrepio que percorria todo o corpo.

Desci e lá estava o Pedro sorridente. Prometeu-me nunca falar daquilo com ninguém e cumpriu.

Algumas semanas depois, a Carla avançou. Estávamos sozinhos, a estudar no pequeno quarto que eu tinha arrendado, e ela beijou-me, disse-me ao ouvido que estava louca de desejo por mim, apaixonada. Mordiscou-me a orelha e começou a descer pelo pescoço. Ela não era bonita, nem tampouco elegante, mas eu não me conseguia controlar, sentia o meu corpo a corresponder a cada beijo dela. Ela despia-se, peça por peça, sem nunca parar de me beijar e com agilidade ainda me abria o fecho éclair das calças, desapertava-me o botão. Sem me dar conta estava dentro dela. Que sensação, que calor.

Ainda nus, ela fez uma confissão que me arrepiou.

– Foi a minha primeira vez, Carlinhos. Eu senti que era contigo que deveria ser.

Pasmado, olhei em volta e vi uma mancha de sangue no meu lençol. Não queria acreditar.

– Também foi a minha, Carla!

Naquele dia, quando a brasileira me tocou, me apertou contra ela, eu falei da minha infância religiosa, da imagem romântica que tinha da virgindade, ao que ela de imediato me havia dito:

– Carlinhos, fui mãe faiz pouco tempo. Você é um menino, um cara, bem legal. Não faiz isto, você encontrará a minina certa, tal como eu espero que o meu minino encontri.

E assim falamos durante cerca de 1h30. Ela confidenciando os sonhos que tinha para o seu filho, eu confessando as minhas angústias de infância, o meu amor pela Carla.

Pedro, o meu amigo, pensava guardar um grande segredo do mundo, mas eu guardava dele um ainda maior.

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