Custa menos a acordar

Será um fenómeno exclusivamente meu? Sentirão vocês o mesmo que eu? Não sei. Pouco me interessa, todavia. Importa-me sim que, este solzinho a irradiar pelas janelas do quarto, do carro, do escritório, a reflectir-se nos olhares, nos sorrisos, nos belos cabelos, loiros e morenos, nas peles macias, torna-me o dia mais alegre, mais abastado.

Estava a pandegar, é lógico que eu quero que vocês se sintam tão bem como eu. Quanto mais felizes forem as pessoas que me rodeiam, mais feliz serei.

Desde miúdo, nutro uma paixão por estes dias soalheiros: de sorriso incandescente nos raios do sol; de azul claro no céu; de cores vivas nas roupas; de agitação nas pessoas; de celeuma nos acinzentados.

Lembro-me de, em tenra idade, cinco, seis ou sete anos, a minha mãe vestir-me uns calções de ganga ou sarja, umas sapatilhas All Star, mas da Sanjo, uma t-shirt ou camisa ao seu estilo, não obrigatoriamente igual ao que será o meu agora, e por fim um chapéu, não um boné, a contemplar o conjunto. Envergonho-me solenemente dessa indumentária, não propriamente pela escolha da roupa – adequada à altura – mais pelo meu desajeito, que punha o chapéu a meio da cabeça, como protesto por ter que usá-lo. Não sou um Dumbo, mas escusava de realçar tanto as orelhas. Porém, não é esse desarranjo que guardo desses dias, é a paixão que já nutria pelos dias de sol. Sabia que, em dias de amarelo vivo a entrar pela janela do quarto, poderia jogar futebol até raspar os joelhos, correr até ter a t-shirt ou a camisa colada ao corpo, atravessar o jardim nas calmas, e derrapar uma ou duas vezes pelo escorrega, até chegar a casa da minha avó, e a professora também estaria mais benevolente connosco. Não se chatearia tanto com as discussões de quem tinha sido o último a chegar à sala, de quem tinha sido o ovo podre.

No ciclo, secundário e afins, continuava a rezingar a cada dia que tinha que levantar-me antes do Jornal da Tarde, na RTP, mas em dias de sol custava menos. Mais que não fosse pela associação natural a maio, ao fim das aulas bem próximo. Nas aulas, já não eram só os meus colegas que se riam das minhas blasfémias, vestidas de humor, também os professores se riam. Não sei se pelo sol, se pela mesma sensação que a profanação estaria próxima do fim. «Finalmente férias, os pais e os amigos que aturem o raio do miúdo». Certo, apenas que os dias custavam menos.

Hoje, sem dúvida que prefiro dois botões de uma camisa abertos, que um casaco fechado até cochar um pouco de pele no pescoço. Certamente, elejo o sol à chuva, a boa disposição ao escuro dos tristonhos.

Desde miúdo, até ao término da vida, preferirei o azul claro do céu e o amarelo do sol, ao cinzento do éter, ao azul fosco de um esplendor invisível. Custará sempre menos a acordar.

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