A ida a Coimbra

Este texto participou num concurso da revistaVolta ao Mundo, não foi seleccionado e agora partilho-o com vocês!

Maio de 2007, já conhecia a adorável Coimbra como a palma da minha mão. Já por ela havia viajado vezes sem fim, com loucas noites académicas, com divertidos passeios pelas faculdades, com românticos fins de tarde junto ao rio. Não eram mais que as viagens mentais que acompanhavam cada história, cada peripécia, que um amigo estudante me contava das suas semanas na famigerada Coimbra. Só tinha vagas passagens de infância por aquela cidade e já a amava como se fosse pertença do meu dia, da minha vida.

Chegou o referido Maio, o calor já emanava no ar, as t-shirts já substituíam os casacos, o sorriso dos dias solheiros já preenchia os rostos, quando me decidi que era o momento: o fascínio iria tornar-se lembrança. Armei o itinerário, conversei com o meu velhinho Renault 5, companheiro de aventuras, e telefonei, telefonei com o entusiasmo de quem sabia que era ali, Coimbra, onde queria estar. À mesma velocidade que essa excitação me dominou, quatro amigos me disseram que sim. Parceiros de vida e para a vida.

– Estou? Como é, vamos ter casa para o fim-de-semana? Somos cinco.

Ele respondeu que já lá deveríamos estar. Questionei se o outro e o outro não se iriam importar, prontamente me avisou que seria o contrário, que agradeceriam a visita. Então o que me falta para me tornar mais um apaixonado pela arrebatadora Coimbra? Falta-me combinar horas e seguir viagem. Assim fiz.

Naquele meio de tarde tomávamos um café na nossa terrinha, a ânsia não podia ser escondida dos nossos rostos, bem como o aumento de cinco para dez. Já não era apenas o meu companheiro, o meu Renault 5, que faria aquela viagem, já um Clio, cinco amigos, se haviam juntado a nós. A minha ânsia era agora o nosso desejo. Uns pelo anseio de regresso, outros pelo nervosismo de uma nova paixão que se criava, que se aproximava.

Em plena auto-estrada, o velhinho Renault movia-se pelo regozijo de quem nele estava instalado, o gasóleo a queimar era substituído pelo fumo da irreverência dos nossos cigarros, o barulho do motor pela sonoridade dos sorrisos sinceros, a chauffage pelos vidros abertos.

Desembarcados em Coimbra, uma viagem de carro por toda a cidade, não premeditada, apenas na procura do acesso exacto ao nosso aconchego para o fim-de-semana. O amor já crescia em mim, a cada traje que via a passar, a cada pessoa que me fascinava por espelhar o Mondego no seu olhar, a cada rua, esplanada, que me parecia tão diferente de todas as outras que já tinha conhecido na minha vida. Descobrimos, meio ao acaso, quando ligamos para saber o sítio exacto, estávamos à porta. Era na parte superior de Coimbra, bem juntinho ao hospital, numas galerias que tinham tanto de banal, como de apaixonante para mim naqueles dias. Seria a marca, a lembrança, da minha primeira grande experiencia em Coimbra. Foi mesmo.

Mochilas descarregadas, surpresas maiores. Qual o nosso espanto, não eramos os únicos a brindar Coimbra, a casa dos nossos amigos, com a nossa visita, talvez lá estivessem mais umas dez pessoas. Sacos-cama no chão da sala, quartos com cobertores no chão, cozinha enfeitada por sumos extra que fariam a delícia do pós acordar, das bocas secas.

A responsabilidade de saber que não era o momento para continuar a condução fazia-nos ligar para uma central de táxis: são 7 táxis para o hospital. Eles vieram, vieram mesmo, e levaram-nos ao restaurante, já bem pertinho do Mondego, daquela azáfama de uma Coimbra que só quem por lá passa compreende. Descíamos as escadas para a sala de jantar e ouvíamos os cânticos académicos, víamos os trajes a cruzarem-se connosco, os empregados loucos de trabalho sem tirarem um sorriso típico de quem faz a Coimbra que nos apaixona. Depois, veio a passagem da ponte já em grandes cantorias, a entrada no recinto, os encontros e desencontros típicos de quando a luz se baixa, de quando a noite é o palco de todas as histórias. Havia bandas a actuar, agora não consigo precisar de quais se tratava. Sei que havia também a tenda do Licor Beirão, do Red Bull, da venda do tabaco, as típicas roulottes para matarem qualquer apetite repentino. Acrescer-se-iam algumas histórias que agora não irei contar. Agora a ponte era atravessada já com a luz do dia, os cânticos já não eram gerais, alguns vergavam ao cansaço, outros às novas amizades, mas todos seguíamos o mesmo rumo, agora sem os táxis. Tudo o que desce também sobe. Subíamos cada rua como se fosse uma planície, tal o entusiasmo. Os vergados ao cansaço vinham passos, metros, atrás, viam uma Coimbra diferente, nunca a que irei guardar na memória.

Já era sábado, os sumos faziam de almoço com as torradas, as pessoas multiplicavam-se no chão, os vinte pareciam trinta, quarenta, cem, tal era a forma como preenchiam cada cantinho da casa. Saímos sem destino, só para sentir o cheiro, o calor, daquela Coimbra que, não passando a ser minha, seria um pouco minha. A passagem nos jardins da academia era obrigatório, não me tornava um estudante de Coimbra, mas tornava-me mais apaixonado pelos estudantes de Coimbra. Como poderia não me sentar junto ao Mondego, naquelas esplanadas ligeiramente abrasadas por um calor de Maio? Como poderia não calcorrear todas aquelas escadarias, aquelas pequenas entranhas, que tornam uma cidade num marco de história, de simbolismo?

Caiu a noite, a rotina da transacta vinha ao de cima, mas a sensação era a mesma do instante que lá havia desembarcado. Nervoso miudinho, de uma paixão para a vida.

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