Naturalmente mãe

Foram 9 meses, com crescendo de dores, de mal-estar, de peso, de enjoos e apetites. Tudo sem saberes quem eu era, como eu iria ser, se sairia a ti ou pai ou se renegaria aos traços de ambos e iria buscar uma genética esquecida, os traços de outros tempos. Aguentaste a devoradora incerteza com um sorriso que me contam, que ainda não podia ver, mas que hoje consigo facilmente desenhá-lo no bloco das minhas memórias. O teu sorriso.

Foram horas de aperto, de sôfrego, com enfermeiras a dizerem «força Emília! Faça força» como se elas naquele momento fizessem alguma ideia do que estavas a sofrer, do esforço que já estavas a fazer, da forma como ansiavas por aquele instante que eu saltaria cá para fora e choraria, o único choro que eu iria ter que transmitiria alegria. O choro da vida. Eu sai, com percalços, com dias de atraso, mas sai. O teu esforço, a força que empregaste enquanto a chuva batia violentamente nos estores, arrastava cada ranco de árvore, criando uma chiadeira típica de um apocalipse, do crepúsculo. Mas eu sai, mãe, acima de tudo pela força que empregaste… não em ti, mas em mim!

Eu nasci, os primeiros meses não me mexi, levava a vida que hoje, em dias tristes, todos ambicionamos: comer, dormir e chorar. Talvez, quem sabe, também sorrisse. Mas sorrindo ou não, tu sorrias. Sorrias para a vida, porque eu sei, hoje mais que nunca, que para ti sou vida. Tu e o pai têm uma vida, uma vida em conjunto, mas eu vim dar-vos mais vida. Nem sempre certo, nem sempre correcto, mas sempre com vida. A vida que eu tenho é vossa, também é vossa. Obrigado, parece tão escasso, mas é o melhor que o dicionário me permite dizer: Obrigado!

Já fui rei, já fui roque, mas também já não tive rei nem roque, mas tu, vocês, sempre lá estiveram. Obrigado? Continua a parecer-me pouco. É impossível vocês saberem quem eu seria, no que me iria tornar, mas ainda assim não baixavam os braços, lutavam com uma cana a desbravar as silvas do incerto. Para, eu, um dia, não saber como essas silvas arranham, como provocam dor. Era só isso, quando me gritavas, que querias, não era mãe? Não querias que eu sofresse, que eu tivesse que pegar na cana que um dia foi tua, com a qual me abriste caminho para uma vida, que não sendo de sonho, é um sonho.

Hoje o dia é teu, mãe. Não é por uma imposição comercial dos dias de hoje, é pela forma como batalhaste na selva da vida, para que eu gozasse apenas na cachoeira que ao fundo conseguias ver.

Vem, traz o pai. Venham nadar neste pedaço de céu, na terra, nesta cachoeira em que me permitiste construir a minha vida. Esquece a selva, já a desbravaste, já me deste o céu.

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