A minha manhã – do dentista ao cigarro

Hoje, bem cedo, levantei-me, com destino ao dentista. Cheguei, segurando o meu livro (O Mundo é tudo o que acontece – Pedro Paixão) e sentei-me numa sala de espera, agradável. Sofás verde vivo, um plasma, algumas revistas espalhadas, pessoas simpáticas e um barulho, esse mais confrangedor, que vem de dentro do consultório. Li, até ouvir: Ricardo, pode vir!

Assim que entrei, o habitual cumprimento, o pousar do meu livro e casaco num cantinho para o efeito, o olhar para um outro plasma que distrai os utentes no consultório e por fim o sentar na cadeira. Passaram-se os minutos e eu fui ouvindo as brocas, vendo os movimentos com aplicação de alguma força, o apontar de espelhos e trincando e deixando de trincar, conforme me iam pedindo. Nunca houve dor, apenas dormência.

Logo que peguei nas minhas coisas, que me dirigia à saída do consultório e à parte mais dolorosa, o pagamento, uma voz solta, contundentemente, um:

– Ricardo, já sabe que na próxima hora nada de comida ou cigarros.

Eu sabia, mas parecia que me queria esquecer. Eu já tinha tomado o pequeno-almoço, o café e até já tinha fumado, não havia necessidade de o fazer na próxima hora. Porém, quando uma voz, uma pessoa, teima em nos proibir somos dominados por uma forte vontade de contrariar. Estarei errado?

A proibição é o maior motor do desejo. Durante essa hora, que já terminou, comecei a dar por mim a imaginar-me a tomar café e a fumar um cigarro. Aquela sensação da mistura do azedo do café, com o doce do açúcar, a roçar os meus lábios e a escorrer para dentro da minha boca, aquela cremosidade de um café bem tirado a fazer-me dar uma leve lambidela, para manter o gosto vivo. Quase sem intervalo, esticar a mão e puxar um cigarro, dar-lhe vida com um isqueiro preto que esta logo ao lado e dar aquela primeira passa, longa e duradoura, que parece dar continuação ao ritual de beber o café. Mas não, estava proibido. Agarrei-me ao computador, enviei uns orçamentos do trabalho que estavam pendentes, vagueie pelas notícias, li alguns textos que me pareceram interessantes e comecei a pensar no que teria para vos escrever. Não me ocorria nada.

Passou a hora, acendi o cigarro e comecei a escrever-vos. Este cigarro nunca me teria sabido tão bem, se não me tivessem obrigado a não fumá-lo, numa hora que provavelmente não o fumaria.

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