Escritório às escuras!

Um escritório apagado, sem luz, sem vida! Os trabalhadores amontoados num canto, ligeiramente mais quente num dia de chuva, do armazém. Fumam cigarros, conversam, um deles vê no quadro geral se a falha será daqui. Não é.

Incrível pensar que em tempos não houve electricidade, que se vivia numa total escuridão, do artificial! Como seria possível viver? Alias, após a habituação à electricidade que temos, como seria possível sobreviver? Tudo fica tão impossível, aparentemente. Eu, que escrevo este texto numa folha de papel, a caneta, nunca o poderia partilhar com vocês sem electricidade. Não sei se vocês, que o lêem, sentiriam a falta dele, mas, eu, certamente teria pena de não o dar a conhecer.

Gradualmente começam a trabalhar. Os primeiros clientes já ancoram junto ao balcão, com questões e dúvidas.

– Necessitava de um radiador do intercooler, para um Megane II exclama o senhor, dono talvez dos seus 60 anos, com um cabelo completamente grisalho, um bigode não demasiado farfalhudo e uns óculos arredondados, não na totalidade.

Sai o colega, o que coordena todas as operações de armazém, com a indicação do pedido, para outro dos colegas percorrer todos os armazéns, até chegar ao sétimo e confirmar nos 4 Meganes II que lá estão, se algum tem. Caso não tenha, terá que subir ao terraço do quinto pavilhão, para verificar nas estantes, que tocam o tecto e armazenam os radiadores do intercooler.  A rápida consulta, a base de dados, sem electricidade é uma miragem.

Eu detenho-me no meu escritório a escrever-vos. Já estive a esfumaçar um cigarro, junto à saída do principal armazém. Passas lentas e exalação do fumo ponderada, como que esperando que aquele cigarro durasse até ao, exacto, momento em que a electricidade voltaria. Não o consegui prolongar tanto, ou a electricidade não se conseguiu apressar tanto.

Não há café.

Um escritório torna-se absolutamente neutro sem luz, sem computador, sem telefone a tocar. A única azáfama é a colega do escritório ao lado, a secretária, que vai alternando chamadas entre o patrão e a EDP, na esperança que algo mude, que algo possa ser feito. De resto, uma calma avassaladora, apenas a chuva a ir de encontro às telhas cria um som que se propaga e acalma ainda mais o ambiente. A chuva é forte, em alguns momentos de autêntico diluvio, ainda assim transmite uma quietude que não consigo explicar.

Não estou absolutamente às escuras, o armazém nas costas do meu escritório tem algumas telhas transparentes que deixam florear uns pequenos raios de luz natural, o piso amarelado ajuda a reflecti-los e os ecrãs dos rádios defronte ao meu escritório trazem-nos pela porta entreaberta e pelas janelas. Do outro lado de três fileiras de rádios, gps, ópticas e farolins, uma porta aberta, ajuda a esse aclaramento.

Tenho dificuldade de compreender que interesse este texto possa ter para vocês, mas na melancolia de um escritório às escuras, de uma impossibilidade de trabalhar, ocorreu-me escrever. Escrever para vocês.

Agora que vos entrego este texto, naturalmente, já tenho luz.

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