Quando eu era menino

Via o tempo passar, à espera que ele passasse. Sem consciência da dureza ou velocidade dele, aguardava por ele, via-o atravessar, contudo não o sentia passar. Era criança.

Sentava-me nas arquibancadas, da vida da minha bisavó. Ouvia as suas conversas, os seus mexericos e as suas longas palestras. Não percebia, mas sentia algo. Ela era um exemplo. Chegava a noite, o conforto da mãe, que o pai trabalhava fora, e era dela, da bisavó, que havia histórias para contar. Mandava beijos ao meu pai, pelo telefone, via e ouvia a minha mãe em palratórios com ele. Matava as saudades.

Chegava o dia seguinte e as conversas voltavam-se para longos passeios, caminhadas pelas imediações de uma pequena periferia que para curtas pernas, de menino, se tornava uma metrópole. Não havia aviões, grandes prédios ou lojas glamorosas, porém, havia extensos campos, pequenas casas, barulhentos tractores e pessoas conversadoras. Havia sempre conversas, afinal. Talvez tenham sido elas que me trouxeram o gosto de discorrer por estas linhas.

Os anos iam passando, com a delicadeza de um sopro de vento que tenuemente levanta uma folha do chão, e eu via-a partir. Doeu, como dói um adeus. Eu não sabia o que era dor, sentia-me apenas estranho e com medo, mas o tempo é brusco, vem e vai rápido, e eu ultrapassei á velocidade de uma bola a bater numa parede. De uma meninice feliz.

Infantário, primária, são lembranças de jogos de bola, dos primeiros e únicos cadernos que mantive organizados, com letra bonita. As primeiras incursões pelo basquetebol, com a vida adulta à mesma distância longa da tabela. Amizade, essa sempre. Sem a consciência do que ela era, mantinha alguns mais próximos. Outros nem tanto, apenas com os caprichos da vida, a exalação do tempo, assim ficaram, até hoje.

Cada tenra tarefa, que era solicitada, tornava-se uma comprovação do meu crescimento, um atestado do passar dos anos. Afinco, era a palavra que melhor descrevia a minha entrega a essas provas. Levar uma carta ao correio, entregar umas flores à minha avó, levar os 20 escudos à senhora da padaria, trazer o pão, fazia-me sentir um Bill Gates, quem sabe um Steve Jobs. Não interessa a dimensão da tarefa, interessa a importância que lhe damos.

Se hoje sou feliz, se me sinto realizado com a sensação que tenho muito para realizar, é porque aprendi, na criancice, que o grande das coisas não está no tamanho delas, está na relevância que lhe concedemos. Duvidam que, ao escrever um texto, me posso sentir tão realizado como o homem que principiou as passagens pela lua?

Não sejam irreais, sejam reais, sonhadores e esperançosos. Eu posso não conseguir tocar a lua de todos, mas garanto-vos que um dia construirei uma lua minha.

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