Manuel – penso que era assim que se chamava

Diz quem o conhecia que nunca tirava a sua boina. Levantava-a um pouco, até meio, para coçar a cabeça já careca, mas tirar não.

Todos os dias saia da sua já velha casa, gasta pela erosão do tempo, com uma fachada tipicamente invicta, do Porto. Passos curtos e lentos marcavam a cadência da sua caminhada, do túnel de Ceuta até São Bento. Os ligeiros solavancos da sua bengala marcavam os seus descansos. Manuel – penso que era assim que se chamava.

Chegado a São Bento dirigia-se aos bancos verdes que contemplam as linhas do comboio, olhava os enormes placares que marcam as horas de cada ligação ferroviária e ali se deixava ficar. Durante horas viajava pelas pessoas que afoitas de compromissos se intrometiam, a cada comboio amarelo.

Em cada passo imaginava uma direcção, um rumo de vida. Em cada olhar supunha um pensamento. Em cada beijo idealizava uma história. Em cada mão dada lembrava-se de um poema de amor. Em cada grupo de amigos ia até à sua mocidade. Em cada telefonema concebia um rosto, do outro lado. Em cada correria sentia as mazelas do seu corpo, a força dos anos. Em cada traje académico via um dos seus filhos. Em cada intervalo, entre horas de confusão, fumava mais um cigarro.

Um dia, dois, três, a sua ausência foi notada.

– Onde estará o Sr. Manuel? É assim que ele se chama, não é?

Os funcionários de uma enorme estação notaram a sua falta, a sua pequena família não.

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