Um dia vais-te deitar na cama que estás a fazer

Era um menino pequeno que gostava de pegar nos seus livros no intervalo, enquanto comia o lanche feito pela mãe. Sempre amei a minha mãe, mas a forma como ela me vestia, fazendo lembrar um amish, envergonhava-me solenemente. Todos passeavam as suas calças de fato-treino ou jeans, enquanto eu usava as minhas calças de fazenda, os sapatinhos sempre engraxados, as camisas com padrão de quadrados e as camisolas de lã que não variavam muito além dos verdes, azuis e brancos. Todos me gozavam.

Quando tinha 8 anos, completados há poucos dias, levei a primeira surra. O James, o mais alto da turma, roubou-me a sande que a minha mãe havia feito nessa manhã, queijo e fiambre, eu num impulso irreflectido levantei-me como se fosse correr atrás dele. Não corri. Ele, prontamente se virou para trás e disse:

– Vais fazer alguma coisa oh caixa de óculos? – Sim, eu também usava uns óculos com uma armação castanha e completamente redondos.

Envergonhado, enquanto todas as crianças do recreio já olhavam na minha direcção, respondi:

– Não.

Ele encostou o seu peito, quase ao nível da minha cabeça, e eu cedi á sua força. Dei dois passos para trás e tropecei no degrau, antes mesmo de embater desamparado no chão já todos se riam, uma gargalhada geral. Assim que bati, com estrondo, com as costas no chão, ouvi o James dizer:

– É para aprenderes, eu fico com o teu lanche sempre que quiser – culminando o seu aviso com 3 violentos pontapés na parte da lateral da minha barriga.

Não consigo ter a certeza se os pontapés doeram, mas sei que a dor da humilhação era muito forte. Desde esse dia não só o James, como quase todas as crianças me desprezavam ou faziam de mim o alvo das chacotas. Uns pela sobranceria de liderar a escola, outros pelo receio de serem associados a mim. O meu mundo não fazia sentido.

Lembro-me de ir para o liceu de Springfield, estado do Illinois, e almoçar diariamente sozinho, vir para casa escondido no autocarro, amarelo, na esperança de não ser avistado. Deitar-me por cima da roupa da cama e ler incríveis policiais e romances, de variados autores, e sonhar que um dia eu sairia do marasmo da minha vida, do receio da chacota, e seria eu naqueles livros.

Nesta altura James era o capitão da equipa de futebol americano, sem nunca se esquecer de mim, de me atormentar a vida. Fatidicamente, eu continuava a ser vestido pela minha mãe, continuava a levar as sandes feitas por ela para a escola e continuava a usar os óculos redondos.

– Oh caixa de óculos és cá um cromo – esta era a mais benevolente afirmação que eu ouvia do James. Outras mais ferozes guardava para quando se acompanhava das suas belas amigas loiras, invariavelmente, pouco abonadas de cultura.

Em mais uma das incursões do James – colocou-me dentro do caixote do lixo no corredor – eu voltei a ter o gesto irreflectido dos 8 anos. Enquanto ele se afastava a sorrir com os seus 4 amigos, eu ripostei, bem alto:

– JAMEEESSS!!!

Todo o corredor se silenciou, olhou para mim, com um espanto de quem sentia que algo estava para acontecer. Ele voltou-se para mim e questionou:

– O que se passa, caixa de óculos?

Enchi o meu peito de ar, olhei-o fixamente, com a certeza que aquele seria o meu ponto de viragem e exclamei:

– Um dia vais-te deitar na cama que estás a fazer.

A gargalhada geral repetiu-se, o James respondeu com um «pppfffff» bem elucidativo do seu desprezo á minha resposta. Uma vez mais sai humilhado. Tinha agido sem pensar, só queria que a minha vida acabasse.

Fui para a Universidade de Boston e acabei mesmo por entrar nos livros. Não como o felino policia, ou como o temível Frank Cowperwood dos romances de Theodore Dreiser. Apenas como escritor. Agora podia ser tudo o que quisesse.

James entrou na Universidade de Duke, com uma bolsa pelo seu excelente desempenho no futebol, mas viria a morrer assassinado. Jonathan, mais uma das vítimas dos maus-tratos, não resistiu à pressão da humilhação e assassinou James e mais 3 dos seus amigos inseparáveis.

No dia que soube da notícia, apenas consegui pensar para mim:

Um dia eu disse-te… vais-te deitar na cama que estás a fazer!

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