Pare, Escute e Olhe

 Uma das dúvidas com que me deparo diariamente, antes mesmo de aqui vos escrever, é se começarei pelo texto, se começarei pelo título. Uma perfeita estupidez, uma dúvida sem sentido para quem tem uma vida para viver.

Já cogitei em grandes temas que apreciava declamar a minha opinião, ideias que vou formulando na minha cabeça e que tendem a multiplicar-se, quando escrevo. Nada, é ao que resume esses grandes temas. Tenho todos apontados, num caderno, com uma caligrafia bem redonda, uns sublinhados visíveis nas páginas seguintes, tal a força do risco, mas que se traduziram em nada! A rigidez de um título é limitadora, deixa demasiadas amarras do caminho a ser seguido.

Seria tão pobre da minha parte, agora, utilizar a casa como exemplificativo disso mesmo, a velha história que não se pode começar a obra pelo telhado. Porém, pelo alinhamento das folhas de word – o título, depois o texto – parece-me mesmo o melhor paradigma.

Na vida vão se multiplicando os casos em que começamos pelo título, a velocidade com que vivemos obriga-nos a descrever tudo em títulos. Tão redutores, tão aquém de tudo o que somos e fazemos. Não me refiro aos astutos que vão colando em si rótulos bem mais interessantes que os conteúdos que têm para oferecer, refiro-me às pessoas que dispõe de cinco minutos, numa entrevista, para ponderarem um título que seja suficientemente bom para, entre milhares, serem a escolhida. Escolhida para um contracto de um ano, em que irão ler todo o seu artigo. Para poderem demonstrar que mais que um título bem conseguido, são uma pessoa com valor e vontade de trabalhar.

Esta ânsia de títulos, esta dependência da capacidade de resumir, é tão cruel.

Gostava que se unissem a mim, sempre que nos perguntarem:

– Mas então como te definirias?

Vamos responder:

Sou o miúdo que até aos cinco anos fazia companhia à minha bisavó, que na primária era aplicado mas não perdia uma oportunidade para saltar o muro da escola, que fez do 5º ao 9º ano sem brilhantismo, mas sem se envergonhar, que descambou no 10 º ano, que se resumiu a asneiras, que deu a volta por cima e fez um curso técnico em três anos, que foi para universidade aprender bases de marketing, publicidade, economia, gestão, análise financeira, estudos de mercados, comportamentos do consumidor, que se começou a tornar homenzinho, que arranjou trabalho antes de acabar a licenciatura e que se tivesse que definir um título para si seria:

Pare, escute e olhe, porque amanhã o meu título será outro! 

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