Estou no topo do mundo

Estou no topo do mundo. Tenho o meu mac aberto na luxuosa secretária do Trump International New York. Franzindo o olho esquerdo, e levantando tenuemente o mesmo ombro, alargo o nó da gravata, usando movimentos rectilíneos – agora da mão oposta. Finalmente, consegui libertar-me do, sôfrego, aperto dela. Vou atirá-la para trás, para cima da cama, em tons pastel, onde estão caídas as chaves do meu Bentley e arremessado o meu blazer preto, Hugo Boss.

Estou, enfim, pronto para escrever.

O dia está invernoso, não com aquele cinza escuro a que a chuva nos habitua, antes com aquele acastanhado de outono. Sinto-me deliciado a ver as folhas deslizarem pelo Central Park. Sinto-me tão leve quanto elas, o vento sopra-me ao ouvido e eu sopro-lhe de volta. Consigo tocar cada casal de idosos que se deixar descansar num dos bancos, cada jovem mulher que percorre os quilómetros imensos do Central Park, dentro dos seus fatos justos de lycra, ouço cada música que os grupos de jovens levam nos seus Ipods, meto conversa com cada empresário que passeia os seus fatos, semelhantes ao meu. Estou no topo do mundo.

Tenho mais de 30 anos, acabei de chegar da apresentação, na Biblioteca Municipal de Nova Iorque, de mais um best-seller meu –Como fazer milhões – com este já são 5 a percorrer o mundo, ensinando a ser um empresário de sucesso. Ontem tive um jantar delicioso no Jean Georges, aqui mesmo no Central Park, com uma russa lindíssima que conheci na noite anterior no Rink Bar, na 5th Avenue. Terminamos a noite neste quarto de hotel, de onde agora vos escrevo.

Longe vão os tempos da minha infância na pequenina aldeia de Lindoso, Ponte da Barca, onde eramos poucos jovens. Entrelaçávamos os sonhos de estudos superiores, com os anseios de seguir a herança do cultivo. Segui o sonho – Gestão em Lisboa. Hoje, vinte anos depois, estou no topo do mundo. Tenho a vida que todos os homens sonham: sucesso; dinheiro; mulheres.

Oculto-vos apenas uma coisa: hoje completo 37 anos e tenho saudades da minha vida no Lindoso, da minha namorada da juventude, dos meus amigos de roupa suja das terras e do convívio com os velhinhos que acalentam o café da aldeia. Faço anos e estou sozinho.

Jogo jogos de poder, de sedução e termino na solidão.

Com amor, para Lindoso…

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