Aquele dia era diferente

Vagueava pela mesma rua de sempre, à hora de sempre. Mas algo estava diferente.

– Porque que não estás a jogar à bola, Pedrinho?

Pedrinho todos os dias, desde os seus 3 anos, era deixado pelos pais em casa da avó às 8h, da manhã, antes de irem para o trabalho. Seguia direito ao quarto dela, beijava-a e dizia: «Bom dia, avó! Vou jogar á bola, sim?». Naquele dia ele não estava a jogar.

Invariavelmente a avó, com a sua voz doce, que abrilhantava o seu rosto e coloria o seu cabelo, respondia: «Sim, Pedrinho. A avó vai fazer o pequeno-almoço para nós.» Naquele dia algo estava diferente.

– Estou triste – exclamou Pedrinho para a velha Umbelina, melhor amiga da sua avó.

A velha Umbelina diversas vezes acompanhava o Pedrinho e a sua avó em passeios pelas imediações da capela, em longas conversas ou nos chás à tarde, no café Central. Era uma senhora de 77 anos, com um rosto cansado do tempo, um olhar feliz pela realização que via nos seus filhos, e um cabelo curto, escondido pelo lenço que usava.

– Porquê, Pedrinho?

Os habituais traços de felicidade, típicos de um menino de 5 anos que vê a vida como um mar de felicidade, que desagua no amor pelos seus pais e avó, haviam sido substituídos por um doloroso semblante. Não parecia o Pedrinho. Aquele dia era diferente.

– Fui dar o beijinho à avó e ela não me respondeu! Virou-se para o outro lado e não quis falar comigo. Ela já não gosta de mim.

A bola mantinha-se em baixo do braço de Pedrinho. Não havia forma de conseguir que ele a soltasse de encontro à velha porta de madeira de casa da sua avó. Não havia forma de vê-la a embater na esquina do degrau e a chocar com carro do Sr. Joaquim do Central, para imediatamente se ouvir: «Um dia ainda me vou chatear contigo, Pedrinho. Tu não aprendes!».

– Não digas disparates, Pedrinho! A tua avó adora-te, vou já falar com ela.

Pedrinho não se convenceu. Logo a seguir à velha Umbelina rodar a maçaneta dourada, gasta pela erosão, e entrar, sentou-se no degrau. Os olhos estavam brilhantes, lacrimejantes.

– Rápido Pedrinho, pega no telefone e chama uma ambulância. Liga para o 112.

A dona Genoveva, avó do Pedrinho, tinha sofrido um AVC. Não teve forças para lhe resistir, apenas para se aguentar até à chegada do Pedrinho. Para ver o sorriso que alegrava o seu dia uma última vez.

Ela não deixou de gostar dele, amá-lo-á para sempre. Um dia o Pedrinho perceberá.

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