O chumbo da Bolsa de Estudo

Entre ontem e anteontem, via a reportagem que demonstrava a pesarosa realidade do final dos estudos. Não o término da licenciatura, não o chumbo repetido, simplesmente o não à bolsa. Doloroso, frustrante.

– Opá, isso não me parece nada de mais, há coisas bem piores. Se não daqui a mais não há trolhas!

Senti o meu corpo a ser violado por uma faca difícil de remover, sem gritar e espernear, sem insultar e maltratar. Compus-me, soltei um breve sorriso, de simpatia mordaz, e atirei um simples, nada elaborado:

– Não digas isso que não te fica bem. Espero que não acredites no que disseste.

Desviei a conversa em outro sentido, não pelo receio do confronto ou muito menos por qualquer tipo de concordância, fi-lo pelo elogio à insipiência que seria dar continuidade a tamanha palermice.

Eu devo muito aos meus pais. Não sendo ricos, viram sempre a bolsa recusada por artificialidades dignas de quem está de má vontade, nisto dos apoios. Enfim, não é de mim que pretendo falar. Não seria justo. Sou um dos felizes jovens que conseguiu concluir a sua licenciatura, que não se atirou ao mercado de trabalho, mas caiu nele e lá se mantém. Felizardo. Sem dúvida algo que me descreve, mas não me define. Sou feliz, sou afortunado, mas não sou imune à triste cina de tantos que mereciam a minha sorte, melhor sorte.

Sofri de verdade, não por sentir a dor na minha pele, mas por ver os olhos daqueles jovens lacrimejados, por ver a força com que a cada dia se tentavam libertar das cordas que os prendem no fundo, tudo para um dia mostrarem aos seus pais, aos seus familiares, amigos: consegui, por mim e por vocês!

– Opá, agora toda gente é doutor, devia haver uns anos com o acesso mais restrito, quase proibido! São estudantes e formados a mais.

Será possível que acreditem nisso de verdade? Não lhes passará em momento algum pela cabeça que não existem formados a mais, existe é trabalho a menos? Estariam esses bárbaros de ideias tacanhas prontos a proibir os filhos de estudar por as gerações anteriores, felizmente, terem tido um acesso mais facilitado ao ensino?

Perdoem-me. Eu não me guio por idiotices impingidas por atores de interesse, que mesquinhos filósofos de café abonam com uma sobranceria de quem guarda em si rancores da forma como não batalhou por ser diferente. Pior, abomino pessoas que tiveram a hipótese de estudar e a recusaram para agora dizerem que isto há doutores a mais. O saber, o estudar, não ocupa espaço. Eu sou licenciado, sou formado, não me cortaram as mãos, por isso poderei vir a carretear tijolos, a chapar massa. Simplesmente o farei com um nível de ensino que me orgulho, que me torna capaz de abrir outras portas.

Para vocês, doutos ignorantes, eu digo:

Um licenciado pode ser trolha, mas um trolha sem estudos não pode ser licenciado.

Estou farto que digam que se estuda de mais, nunca se estuda de mais. Gostam tanto de criticar o governo, o país, e depois na vossa erudita ignorância ilibam o governo da falta de oportunidades de carreira, de emprego, para culpar os que estudam. Tristes mentes.

Poupem-me ao flagelo dos vossos tacanhos pensamentos. Sou uma mente aberta, não sou uma porta escancarada.

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