Os cantos de um mundo que já não é o seu

Lá estava ele. Rodeado por uma imensa multidão, sentindo o palpitar de cada coluna de som nos seus tímpanos, vendo os corpos a moverem-se de forma ritmada, como que criando desenhos invisíveis num ar que ele respirava, sentindo-se à parte de um mundo seu. De sua pertença.

Os seus olhos azuis, o seu cabelo aclarado pelo sol, o seu tom de pele com um toque docemente acastanhado, o seu corpo traçado pelos desportos aquáticos, não o deixavam passar despercebido, no sítio em que ele havia abandonado o seu corpo para viajar com o seu pensamento.

– Olá. Estás tão tristinho no teu canto, posso ajudar?

As abordagens, os olhares transviados, os sorrisos prometedores eram a prova cabal que ele ali se encontrava, mesmo sem ali estar.

– Porque te foste deitar, assim chateada comigo? – não parava ele de se questionar.

Era uma sufocante imagem do seu amor em lágrimas, entristecida pela sua falta de consideração, que na altura não era mais que a sua afirmação de masculinidade, de imposição dos seus desejos, e que agora se transformava no seu sôfrego apetite por retroceder o tempo, por alterar a história. Era dolorosa a forma como repetia para si essa imagem ficcionada, que podia ser a mais pura realidade, da sua bela paixão, de olhar entristecido, de olhos lavados em lágrimas, a deitar-se, encolhida sobre o seu corpo, enquanto desejava apenas a presença do seu homem, ali a seu lado, agarrado a si num dia difícil, de saudades asfixiantes.

– Desculpa estar a meter-me assim contigo, mas posso saber o teu nome?

As palavras saiam-lhe monocórdicas, os puxões e empurrões dos amigos eram um abstracto toque na sua distância do local desejado. As tremuras dominavam o seu contacto com as teclas do telemóvel, o olhar fixava-se num ecrã que não mudava de cor, que não recebia resposta.

Eu estava lá, eu vi.

O mundo rendia-se à sua beleza, desejava o seu sorriso, e ele entregava-se a uma distância que o fazia penitenciar-se pelo que horas antes tinha sido a sua exaltação do ego.

– Anda-te embora para a pista, bro! Isto hoje está a topo!

Um mundo, que sempre havia sido seu, em que nunca tinha caminhado sozinho, como hoje não caminhava, fazia-o sentir-se o homem mais solitário que alguma vez havia sido criado. Era uma dolorosa sensação que lhe apertava as artérias, que lhe fazia o punho cerrar a cada nova abordagem que lhe era feita, a cada olhar que lhe encetavam… era outro mundo, já não era o seu!

– Malta, apetece-me ir embora. Isto hoje está horrível!

– Estás-te a passar, man? Ao tempo que isto não bombava tanto…

Eles tinham razão, ele é que não conseguia vê-lo, muito menos senti-lo.

Piii-piiii-piii-piiii. O telemóvel tocou:

Desculpa, babe. Fui egoísta, eu amo-te e sei que tens direito a divertir-te e não tens culpa de eu ter tido um dia horrível.

O coração atravessou todos os seus órgãos, bombeou o sangue a uma velocidade vertiginosa, apertou o estomago até à exaustão e saltou pela sua boca, descaindo para a ponta dos seus dedos:

Não, babe. Eu fui parvo, era ai que eu tinha que estar, é ai que eu quero estar. Não me perdoo pelo que te fiz. Love you.

Assim terminaram os 5 minutos mais longos da sua vida…

Advertisements

2 thoughts on “Os cantos de um mundo que já não é o seu

  1. Acabei de conhecer este novo “mundo” das tuas tempestades!não sabia onde comentar, então achei por bem ser mesmo no 1º!
    Estou sem dúvida surpreso!não te imagino um escritor de histórias e contos abstractos…!mas não é que o consegues fazer?!e bastante bem…pequenas histórias, comuns e do dia-a-dia, provavelmente com muitas influências de experiências próprias, tal como este 1º..quem é que não se revê num episódio destes?!…pode parecer repetitivo, e até bajulador, mas não é, é verdade, voltei a gostar!!
    Fico a espera de novas histórias! abraço

    • Foi um desafio que coloquei a mim, Zão. Não sei se tenho muito jeito ou não, mas decidi arriscar!

      Tem algo meu, algo de quem me rodeia, algo de pessoas que nem conheço… é isso que me tem motivado nesta nova aventura 🙂

      Obrigado 🙂

      Grande abraço

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s