A chuva a bater

A delicadeza abrupta da chuva a bater no estore, na janela, remete-me para uma paz que dificilmente poderei expor em palavras. Quietude.

Os próprios temporais, autênticos dilúvios a desabarem sobre nós, me transmitem um sossego de pensamentos. Fazem-me viajar por entre cada têmpora de água. É deliciosa a sensação de resguardo que as paredes de betão, as telhas de zinco, cerâmica ou pedra, nos proporcionam quando a chuva vai criando uma sonoridade tranquila, ainda que violenta.

O içar do cobertor até ao pescoço, deixando à tona apenas um rosto emanado de pacificidade, de serenidade, o corpo em forma de cadeira por baixos dessa coberta, como que diminuindo todo o seu centro de gravidade, criando uma fogueira que aquece todos os seus detalhes, a televisão com o som quase no ínfimo, os olhos numa luta desigual com o peso do sono que vem da tranquilidade de toda esta lareira de pensamentos leves, tranquilos. A chuva a bater.

Ela bate no chão, nos pátios mais escondidos de cada casa, nas ruas mais movimentadas, nos carros de alta velocidade, nos estacionados, nas janelas rasas de uma casa, no último andar do Burj Khalifa, no Bill Gates, no Manel do Saco, em mim e em ti. A chuva não discrimina, consegue ser doce e delicada, feroz e violenta.

Ela não é unanime, de um lado tem os seus opositores, os que desejam de forma incessante o verão, o seu calor e sol, por outro lado tem os seus fiéis agricultores que esperam e desesperam por ela, vêm nela uma milagreira. Não esquecendo que qualquer vendedor ou fabricante de guarda-chuvas a terá como sua grande paixão. Mas ela não lhes liga, não acede às suas preces: vem quando quer; na hora que quer; com a intensidade que quer; pelo tempo que deseja; Ela é dona da sua existência, é independente.

Sinto a chuva a bater, ouço a sua trepidação, vejo-a deslizante pelo alcatrão da auto-estrada em que guio, sinto-a a resvalar pelo meu pescoço para dentro da camisola, aprecio-a a criar pequenos lagos em locais inimagináveis, a sumptuosamente criar catástrofes naturais porque ninguém deveria passar, a desligar-se da necessidade dela para o cultivo, a abstrair-se dos momentos em que florestas, pinhais, vão sendo comidos pelas chamas, destruídos.

A chuva não é unanime, nem pode ser, ela só quer saber dela!         

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