Largos passos para o futuro

Por diversas vezes me têm definido como optimista, como motivador, não sei se efectivamente o sou, se é realmente essa mensagem que passo, sei sim que sou feito de uma textura que vulgarmente chamam de carne e suportado por uma robusta armação – ossos. Carne e osso, é assim que eu sou feito.

No meu domingo à noite viajava em conversas com amigos, discutíamos isto e aquilo, por vezes regressávamos ao isto e depois lá voltávamos ao aquilo, no final surgiu a política. Uma conversa presente de falta de futuro.

Não raras vezes encontro esperança em pequenos detalhes, parvoíces, que parece que só para mim fazem sentido, que nem eu as consigo explicar, mas desta vez foi diferente. Logicamente que muito da conversa foram especulações, futurismos, mas com uma carga negativa de serem um retracto de situações reais: criminalidade; sofrimento; pobreza; famílias de classe média na miséria; qual classe média?

Despedimo-nos, pagamos o luxo dos dias de hoje – café e água entre amigos – e eu segui viagem sozinho, no meu carrito, com a minha música e o meu cigarro. Foi um trajecto penoso, não pela distância ou qualquer doença, porque pela primeira vez me via a sofrer com uma reflexão, que não sendo a minha realidade, me tirava a capacidade de encontrar a parva esperança que me move. Sentia-me triste. Famílias a cair na miséria, economia estagnada, dinheiro encurtado ao limite, gastos controlados ao detalhe, como podia eu estar feliz? Não podia.

Hoje sinto-me assustado, são 3h01 da manhã, deveria fazer horas que estava a dormir – amanhã levanto-me cedo – mas estou aqui a desabafar com vocês, que só daqui a algumas horas conheceram esta minha realidade, amargurada, de pensamentos.

Repentinamente, sinto um novo rasgo de esperança, não porque alguma dessas realidades tenha mudado, apenas porque o partilhei com vocês. Egoísmo. Que outro nome posso dar ao dividir melancolias, para as diminuir?

Curiosamente, sou feliz em ter estes rasgos de egoísmo, ou em receber estes rasgos de egoísmo, pela afirmação que fazem de vida em sociedade, ainda que informatizada, neste caso. Aqui está a parvoíce que me devolveu a esperança: sociedade.

Não acredito na nossa classe política, nas elites, mas move-me uma esperança transcendente do grosso da nossa sociedade, do nosso povo. Sinto que somos feitos de uma fibra que não consigo descrever, de um adjectivo perfeito que não encontro, como quando nos perguntam qual o género de música que mais gostamos e dizemos muitos ou vários. É injusto, redutor, escolher apenas um.

Não me perguntem como, não perguntem porque, mas eu acredito em nós!

2 thoughts on “Largos passos para o futuro

  1. Olá! parabéns pelo blog e por mais um post fantástico, daqueles que dá vontade de comentar, e nos faz reflectir sobre o que andamos aqui a fazer, E este fez-me colocar-me uma questão “clichê” que é “Onde é que vamos parar???” Tal como tu, “Sinto que somos feitos de uma fibra” que também não sei descrever numa palavra, mas sei qual é a que não nos define: “piegas”, caso contrário não estariamos a remar o barco contra a corrente, como é o caso, será uma palavra que mistura amor e espirito de sacrificio, só há um palhaço ou dois que fingem que não percebem que já chegamos ao ultimo furinho do cinto e que a nossa vontade agora é chicoteá-los com ele… neste momento reflectir sobre a situação do país revolta-me tanto como falar de religião (sou agnóstica) que respeito desde que quem acredita num qualquer Deus me respeite também a mim e à minha posição em relação ao mesmo, quero com isto dizer, que respeito mas não aceito quando me toca directamente em algumas situações, Deste modo, é assim que me sinto em relação a este governo, não acredito minimamente, que as politicas de austeridade recentemente adoptadas nos levem, algum dia, a “bom porto”. Como é que é possivel que consigamos aumentar a produção e o rendimento do país com pessoas “cansadas”? que já deram o seu contributo ao país, e cujos seus objectivos profissionais já foram há muito alcançados, que neste momento só contam os anos intermináveis, que aumentam de ano para ano para se reformarem e viverem com os poucos tostões que lhes cabe e para os quais suaram uma vida!? e com jovens desempregados a quem se pagam subsidios para estarem em casa a “tocar viola” porque só “cabem” em licenças de maternidade e baixas médicas, e estão cheios de saude, de objectivos, ambição profissional, e ansiosos por mostrarem a sua competência, objectivos estes, que se transformam em desilusão, frustração e revolta por nao quererem abandonar o país e este não lhes deixar outra alternativa. Andamos há anos a levar com taxas e aumentos que nunca mais param de inventar para tapar os buracos que eles escavaram e que acabam sempre a escavacar o nosso bolso mais um bocadinho. as consequências todos adivinhamos, diminuição constante do poder de compra, endividamento das familias, falências diárias de empresas (e mais umas tantas que fingem passar por elas – para dar um chuto no trazeiro ao trabalhador sem indemnização e deixar outras empresas fornecedoras à beira da real falência porque não lhes pagarem…) Temos um país cada vez mais velho, e ainda assim, não se faz nada para incentivar a natalidade (só se faz o contrário despedem-se grávidas a contrato) os jovens têm cada vez menos filhos e cada vez mais tarde porque simplesmente não conseguem a estabilidade necessária para pensar em filhos, e eu pergunto, nós andamos a descontar para os subsidios e para as reformas dos nossos “pais” mas os nossos filhos serão “suficientes” para pagar as nossas? Duvido! já que até para ir ao Hospital de urgência é preciso ter quase 20€ (nem às necessidades básicas temos direito com os nossos descontos). Enfim, não me vou alargar mais porque este assunto dá “pano para mangas”… mas também continuo a acreditar que isto não são queixas minhas nem piéguices do povo, são apenas desabafos de quem se vê obrigado a abrir mão de tanto por tão pouco.
    Ainda assim, sentimo-nos gratos todos os dias por não ter uma vida pior, porque há muito nos deixámos de comparações com os melhores, Somos felizes com pouco e temos um espírito optimista de quem só vê o presente risonho por mais uma conta paga com a sensação de dever cumprido, com o pensamento “hoje deu e amanhã logo se vê!”
    Desculpa-me o “testamento” mas este post é daqueles que semeia mesmo uma tempestade de ideias na cabeça e como não se podem comentar as noticias do jornal e ninguém tem paciência para mais comentários politicos… abusei deste espaço =) Mais uma vez parabéns por nos presenteares diariamente com os teus pensamentos ricos e inteligentes! felicidades e sucessos!!!

    • Obrigado, Mariana 🙂 Obrigado pela leitura, obrigado pelos elogios e obrigado pelo teu testemunho.. é por isto mesmo que criei este blogue!

      Quanto a tudo o que abordas e li cuidadosamente, que mais posso eu dizer que: como eu te entendo; como eu te percebo; como eu estou de acordo contigo.

      Falam-nos dos sacrifícios que fazemos pelas gerações seguintes, que serão quem sabe filhos nossos, mas eu vejo-o como sacrifícios de e por gerações antigas. Não me refiro aos meus pais ou aos meus avós, refiro-me a uma classe política desgastada, de parco reconhecimento nas suas áreas académicas, que não por vocação, mas por oportunidade de carreira seguem a política. A crise não temos como fugir a ela, mas guardo a esperança de se comprovar que é nos momentos de exacerbante dificuldade que investimos nas grandes mudanças.

      Assim, mesmo engolido pelo sôfrego diário da luta por cada tostão, acredito que virá uma nova geração de políticos. Os que vêm na política uma forma de estar na vida, os que transportam em si ideais e projectos, os que sendo reconhecidos nas suas áreas procuram desafios, terminando assim com os que abandonam as suas áreas de formação por falta de oportunidades de carreira, que procuram na política “tachos” passageiros que lhes garantirão um futuro tudo menos austero. Chega dessa classe política cansada e esgotada, oca de ideias!

      Mais uma vez obrigado pelo comentário e pelos simpáticos votos 🙂

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