Ovar, meu berço de ontem, hoje e amanhã!

A vida trouxe-me até esta bela e pequena, em tamanho, cidade, aos três anos. Não mais a deixei!

Aquele cantinho, oculto na periferia, deu-me a minha primeira morada. Deu-me também a segunda, até hoje definitiva. Foi o meu berço, os braços que me seguraram. Viu os meus supremos choros de birra, as minhas primeiras sonâncias próximas a vocábulos, as minhas primordiais brincadeiras com bola, com vizinhos. Foi o sítio que me ensinou que os meus pais não traduziam o mundo, apenas o meu mundo.

A casa dos pescadores, nas traseiras da Segurança Social, deu-me o primeiro contacto com a educação escolar, com o respeito da hierarquia. Deu-me os primeiros amigos, fez-me sentir, pela primeira vez, parte integrante de um grupo, de um conjunto. As lembranças não são vastas, mas marcantes são certamente.

A Ponte Nova, bem juntinho à linha do comboio, preenchia-me as tardes. No reconfortante aconchego dos meus avós, nas parvoíces divididas com os meus primos, nas loucuras saudáveis da idade dos “porquês”.

A praia do Furadouro, a bela avenida central, abrilhantava os meus fins-de-semana. Embalados pelos passeios de mão dada com os meus pais, pelos cafezinhos de pós-almoço. Mais tarde viria a ser o palco do meu primeiro emprego, do meu primeiro part-time, das minhas primeiras aventuras de bicicleta, da minha independência de verão.

O largo dos Combatentes, a fonte, embelezavam o meu ensino primário, os meus primeiros traços de personalidade. As primeiras amizades duradouras. Hoje, posso afirmar que são para a vida.

A meio deste trilho de vida cruzei-me com o velhinho Raimundo Rodrigues, com a Ovarense. Anos e anos de conquistas conjuntas, de histórias escritas nas inapagáveis linhas da memória.

Veio, naturalmente, a António Dias Simões, vulgo ciclo, que em apenas dois anos me marcou para a eternidade. A ludoteca, o campo de futebol, o horário no bolso e diferente todos os dias. Como poderia alguma vez me esquecer?

Júlio Dinis ou José Macedo Fragateiro? José Macedo Fragateiro por opção, por facilidade de transporte e talvez por afinidade. Foram cinco anos, intensos, nada pacíficos. Desvirtuei raízes de educação, pus em causa valores familiares e da escola, mas certamente levei uma lição, uma enorme lição, para a vida! Obrigado e desculpem-me.

Não fiquei por aqui, prossegui estudos, arranjei emprego, tudo em outras cidades. Porém, é Ovar que dia após dia, mês após mês, ano após ano, me vê adormecer.

Tenho ambições, sonhos, planos, mas jamais me conseguirei desligar do sol do Furadouro, do encanto da ria, da loucura do carnaval, do adocicado do Pão-de-ló, da voluptuosidade dos azulejos, do catolicismo das Capelas dos Passos, da omnipresença do Santa Camarão, da imponência do Neptuno, da frescura do Cáster, da juventude da Avenida da Régua, da minha morada  e agora do som dos, já famigerados, Pevides de Cabaça.

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