Furadouro, um dia foste meu

Acordava diariamente às 8h da manhã, montava-me na minha bicicleta, a “siga à rusga”, normalmente gozada pelos meus amigos pelas muitas cores que a preenchiam, e seguia em direcção à praia do Furadouro. Era a mesma praia de hoje, mas diferente… às 9h da manhã já existiam dezenas de pessoas, talvez centenas – nunca fui bom a contabilizar – a passear pela avenida, ou calçadão num tom mais brasileiro, o areal era extenso, criava um contraste perfeito com o azul do mar, que ao fundo se misturava com o azul do céu, as pessoas eram mais sorridentes e eu tinha 16 anos. Era o verão de 2004, em pleno Europeu no nosso país.

Trabalhava numa marisqueira, o meu primeiro emprego de verão, o primeiro dinheiro conquistado, merecido, por mim. Uma semana via os meus amigos na praia e eu a trabalhar, na seguinte via-os a sair à noite e até à meia-noite, talvez uma da manhã, eu a trabalhar. O mundo era diferente, as pessoas eram mais felizes, os adultos eram mais sérios, as crianças mais crianças, ou então seria apenas eu que misturava a expectação, com a adrenalina dos 16 anos.

Um café, dois cafés, um sumo de laranja, uma torrada e chegava o meio-dia, as primeiras refeições:

– Olá, o que me aconselha?

– Para hoje posso aconselhar-lhe um Rodovalho. Vai aceitar a minha sugestão?

Com 16 anos o peixe era intolerável para mim, aconselhava simplesmente o mais caro da lista. Ganhava à comissão. Quem me pode julgar? Tinha 16 anos, queria ir às festas, comprar roupa e tecnologia sem depender dos meus pais.

– Kid, ten beers, please!

Já deviam ser umas três da tarde, chegavam os holandeses que vindos pelo Europeu se alojaram no parque de campismo do Furadouro. Chapéus dignos de vikings, comandantes marítimos, ou apenas com bonecos, cor laranja, calções claros de bolsos laterais, camisolas do Van Nistelrooy, ou Davids, peles brancas e cabelos loiros. Esponjas, bebiam como até hoje não vi ninguém a beber.

São 17h, 17h30 talvez, vou a correr à arrecadação dos vinhos, troco os calções de ganga pelos de praia, desaperto o cadeado da bicicleta, paro-a metros mais á frente, corro para o areal, atiro a toalha e mergulhooooooooo!!!! O descanso do guerreiro!

À noite, visto os calções de ganga largos, a tshirt da Pull & Bear, calço as sapatilhas da Airwalk ou da Reef, quem sabe umas brancas da Nike, já não consigo precisar, volto a montar-me na bicicleta. Casa de um amigo, casa de outro amigo e outro, e outro, e outro, agora sim, estão todos para mais uma noite de um adolescente.

Na semana seguinte iria trabalhar à noite, mas isso dava mais um texto.

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