Olá, Pai

É um bocadinho constrangedor estar a escrever por aqui, para ti. Sabias que tenho criticado, repetidamente, os dias internacionais, mundiais e afins? Pois, por isso mesmo se torna tão constrangedor. Ainda assim, mereces qualquer contradição que eu possa fazer. Mereces tudo!

Tenho feito aqui algumas homenagens, digo isto com um certo pretensiosismo, e faltavas tu. Podia ter esperado pelo teu aniversário, mas ainda falta muito, podia ter escolhido um dia aleatório para me escapar a este vexame de me impugnar, mas não estaria a provar o quanto és importante para mim, o quanto estou disposto a fazer por ti. Estou a contradizer-me, a envergonhar-me, a perder credibilidade de opinião, apenas porque gosto de ti, Pai! Gosto muito de ti!

Amanhã lá vem mais um Benfica – Porto, lá vai a Mãe reclamar que é só futebol, lá vamos nós dizer: «Olha que é o teu Porto que joga.» – Só na esperança que assim ela não reclame, tanto. Já te disse que adoro quando vamos os dois ver o futebol? Que adoro que nos sentemos numa mesa de café os dois, que comentemos o jogo. Que vivamos o ‘benfiquismo’ que desde sempre me incutiste.

Oh Pai, eu já te disse que muitas vezes reclamo contigo, que chego a parecer ingrato, mas que desde que me conheço, que me tornei dono das minhas acções, grande parte do que fiz de bom está associado à pessoa que és? Ao exemplo que sempre foste. Não conheço os outros pais do mundo, não tenho a ambição de os conhecer, porque para mim és o melhor, és o pai mais especial. Nem tu, nem a Mãe, nunca me obrigaram a pensar como seria se eu tivesse outros pais, existirá maior prova do quanto são especiais?

Acho fascinante, delicioso, o jeito tranquilo com que encaras o mundo, a forma pacata com que lidas com a adversidade, o respeito que tens pela família, o amor incondicional que tens dentro de ti, a forma como vês sempre o melhor das pessoas, como defendes todos, como acreditas que ninguém tem maldade, como dia após dia te levantas quando o sol ainda não nasceu para me dar a mim, e a nós, o que de melhor podes dar. Mais do que a hora em que te levantas, admiro o nunca ter ouvido uma palavra de reclamação, admiro em 40 anos de trabalho só teres estado de baixa uma vez, admiro a forma como mesmo quando o trabalho corre mal chegas a casa e interessa é a família. Tens noção da quantidade de valores que isso me transmitiu, mesmo sem o dizeres? Sempre foste um exemplo, mas à velocidade que me torno adulto ainda maior exemplo te tornas para mim.

Por vezes discutimos por eu ter muito do sangue na guelra da Mãe, aqueles nervos que ninguém no mundo conhecerá melhor que tu, mas queres que te conte uma coisa aqui, perante toda gente? Quando saio de casa, quando vou para o mundo em que não me vês, levo muito de ti, levo o exemplo da pessoa que és. Hoje orgulho-me de ter muitos amigos, de ter imensos colegas, de ter montanhas de conhecidos. Sabes onde fui buscar isso? Aquelas lembranças distantes no tempo, próximas na memória, em que com 4 ou 5 anos ia contigo ao centro da cidade, ao Furadouro ou ao café e cumprimentavas toda gente, tinhas uma piada para toda gente. Não conseguirei precisar dias, horas, instantes, mas conseguirei sempre lembrar-me da minha inocência: «Oh pai, pai, conheces toda gente!». Lembro-me da resposta da mãe, visivelmente orgulhosa: «Ele sempre foi assim, filhote!». Já vos disse que são um casal lindo? Os meus velhotes, que conquistam todos os que me rodeiam com a vossa boa disposição, essa boa disposição que me passaram. Esse dom que é saber brincar.

Como já tive hipótese de te dizer, escrever por vezes é tão ingrato, deixa-nos despidos da palavra que seria perfeita para completar o quanto alguém é importante, fundamental, o quanto amamos essa pessoa. Eu estou assim, sem palavras justas para te dizer o quanto és para mim, qual a dimensão do meu sentimento por ti.

Sou contra estas instituições, mas vales as minhas palavras e muito mais:

FELIZ DIA DO PAI!

Um beijinho do teu filho que te adora,
Ricardo Alves Lopes (Ral)

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14 thoughts on “Olá, Pai

    • Um comentário simples, mas com uma importância enorme. Quem nunca aqui comentou é um número que me acompanha, quando comenta torna-se uma pessoa que me faz sorrir. Foi o que agora aconteceu, sorri ao ver o teu comentário.

      Obrigado, Pedro Mainha! 🙂

      Grande abraço

  1. Parece que deixaste mais uma lágrima por aqui… Pelo texto bonito, mas principalmente porque existem pessoas (custa dizer: eu) que nunca escreveriam um texto assim, com um sentimento assim.
    (suspiro)

    Regina

    • Fico sempre na dúvida se devo simplesmente agradecer ou dizer algo mais, mas posso garantir, a ti e a todos os outros, que a cada comentário fico em pele de galinha, independentemente da minha resposta. Para elas, respostas, também preciso de inspiração.

      Obrigado, independentemente do que esteja por trás de cada comentário vosso, fazem-me sempre um bocadinho mais feliz do que o que já sou! Um sincero, OBRIGADO!

  2. Puto assim não vale…. conhecendo como te conheço, é dos textos mais genuinos que li até hoje! A família não se escolhe, mas os amigos sim, e se te tenho como grande amigo, daqueles de por as mãos no fogo ( sim, ainda existe desses amigos!) foi pelos teus principios, valores e humildade. E sim, são sem duvida uns pais orgulhosos, nunca duvides disso! grande abraço! 😉

    • E dizes tu que assim não vale? Que posso eu responder a um comentário destes?

      Não sei se são tão orgulhosos como queriam, sei que foi indescritível o olhar, quer do meu pai, quer da minha mãe, quando lêem estes textos. Sinto-me realizado, da mesma forma que me sinto assim a ler comentários de AMIGOS como tu!!

      Um enorme abraço

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