Querida Mãe, por aqui te escrevo!

Ontem foi o teu dia, não o que o registo civil te indica como o princípio, o inicio de tudo, mas o que realmente vieste ao mundo, nasceste. Fez 51 anos que a minha vida começou a ganhar feição, uma forma abstracta e desconhecida durante largos anos, mas uma forma, uma feição.

Ontem escrevi para ti, somente para ti, palavras nossas que não faria sentido mais ninguém conhecer. Não eram vocábulos, eram sentimentos redigidos. Hoje presto-te homenagem, injusta face à pessoa que és, à pessoa que sempre foste para mim, mas a que neste momento me permito dar-te. Não por ser injusto, apenas pela falta de imaginação, criatividade e até meios para te prestar a consagração justa, devida. Estás a ler, Mãe? Em que estás a pensar?

Sei que uns te conhecem pelo teu jeito nervoso, acelerado, outros pelo teu jeito divertido, brincalhão, outros, ainda, pela coragem, ousadia, que demonstras nos momentos decisivos, de provança, mas eu, teu filho, conheço-te pelo teu tom de voz. Um simples: «Ricardo» me faz identificar-te a metros, quilómetros, de mim. A voz angelical, divina, com que dizes o meu nome, com que dizes filho, quando estás orgulhosa, briosa, de mim. A voz estridente, nervosa, sempre que gritas o meu nome, quando não raras vezes – ainda hoje – faço asneiras. É inconfundível, é única: é a voz do amor de mãe, do incondicional amor de mãe!

Tenho hoje 24 anos, mas já tive meses, ano, já fui pré-adolescente ou adolescente, já me portei mal pela ingenuidade da idade, já me portei mal pelo gozo de desrespeitar o instituído, já me portei mal pela simples inconsciência que tantas vezes me caracteriza. Não é maldade, no fundo, penso que ainda guardo a ingenuidade de criança. Assim quero acreditar. Mas tu, tu minha mãe, sempre estiveste lá, nunca escolheste o fácil, o descomplicado, que seria dizer: «A vida é tua, faz o que entenderes!». Minto, disseste, mas disseste depois de com a exasperação, contagiante, do teu olhar, o trémulo da tua voz, o fervor do teu nervosismo a emanar no ar, pesado da noção do erro, do meu erro, me teres dito o que era íntegro, digno. Não me vetaste nada, condenaste-me como tinhas que o fazer, mas não vetaste. Nunca me educaste na proibição, nunca, nunca. O método, que não era método, era falar-me, dar-me a conhecer o mundo, certo e errado, em palavras. Depois, fazer-me lidar com a escolha, a minha escolha. Porque a vida é assim, não é, Mãe? Somos sempre nós, os próprios, que temos que escolher, não é?

Alguns, na penumbra de uma vida triste, desprovida de sentimentos fortes, dirão que era a tua obrigação. Que és minha mãe, fizeste o que tinhas que fazer. Mas não, não mãe, tu fizeste muito mais que o que tinhas que fazer. Ainda hoje fazes.

Não esqueço, também, o pai em cada uma destas linhas que te escrevo. Ele não foi um mero figurante, ele foi, e é, as vírgulas deste texto que te escrevo. Só não tornei as vírgulas palavras, frases, pelo respeito à dimensão deste escrito. Por respeito ao tempo de quem o lê.

Parabéns, Mãe! Para o ano poderei escrever-te o dobro. Quero escrever-te o dobro!

Beijos do teu filho e amigo,
Ricardo Alves Lopes (RAL)

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