Pieguices à parte sou quase trolha!

Recordo-me de, com os meus 13 ou 14 anos, ter a minha mãe desempregada. A angústia no olhar dela, um reflexo de vazio que ela não escondia, mesmo que tentasse, a lembrança de dias que ela vinha de entrevistas.

– Disseram-me que não tenho habilitações suficientes para o cargo. – Exclamava ela com uma visível tristeza, calcorreando-lhe desde o olhar até às expressões faciais.

– Oh mãezita, não fiques assim, tudo se vai resolver. – Dizia-lhe eu, criança, sem ter a certeza se iria realmente se resolver, apenas com a certeza que queria um sorriso dela.

Entretanto ela tirou um ‘cursozinho’ de higiene e segurança no trabalho. Arranjou trabalho, trocou de trabalho, voltou a trocar de trabalho e hoje mantém-se a trabalhar. Melhores dias chegaram para nós, não apenas pelo dinheiro, mas essencialmente pela imagem de uma mulher mais realizada. Não deixou de ter dias pesarosos ou irritantes, são é mais realizadores. Chatices de um dia de trabalho. O meu pai desde os seus 15 anos que se mantém na mesma empresa. Fará este ano 56 anos de idade. Conseguem imaginar os anos de casa? Mudando de funções, de postos, de cargos, mas dia após dia a vestir a mesma “camisola”. Não sei se o posso condenar pela comodidade, sei apenas que lhe posso agradecer pela vida, que em conjunto com a minha mãe, me permitiu ter.

Eu comecei com os meus 16 anos a trabalhar numa marisqueira, colada à praia, no Verão, de seguida passei para um bar na marginal da mesma praia, trabalhando igualmente de Verão. Não satisfeito, depois de mais uma etapa, fui para um bar no centro da cidade, trabalhando aos fins-de-semana, no Inverno. Durante este tempo também fiz estágios curriculares na Camara Municipal de Ovar, na Agência de viagens PJA e na empresa onde hoje trabalho. Sendo que os dois primeiros estágios se referem a um curso de turismo e o último a uma licenciatura em marketing. Por tudo isto, bafejado pela sorte e por uma inegável entrega, nunca me foi fundamental o envio de currículos. As coisas foram aparecendo e eu fui sorrindo para elas.

Em suma, apenas a minha mãe teve que batalhar no envio de currículos. A sua grande angústia, desolação, tristeza, era a iminente resposta negativa pela falta de habilitações.

Foi passando o tempo e quase tudo foi mudando. A necessidade da minha mãe que diminui, a minha certeza de apenas querer um sorriso que se transformou em algo mais. A única coisa constante é a presença apaziguadora do meu pai. Não se nota o passar dos anos, década, nos cabelos brancos que desde cedo traz, não se nota na rigorosidade com que se levanta diariamente às 5h da manhã para trabalhar, não se nota na calma com que continua a encarar discussões e não se nota na necessidade de estar em casa a inventar algo para fazer. Não se nota!

No entanto, o que modificou mais não foi em minha casa. Foi no mundo que a envolve, foi na península onde ela se encontra. Hoje quem tem licenciaturas, mestrados, mba´s, o melhor conselho que lhes podem dar é: ocultem, escondam, disfarcem!

Existe um fenómeno que assola a Península Ibérica, os licenciados desempregados devem esconder as suas habilitações para não serem demasiados habilitados para as funções a que se candidatam. Quem um dia declarou orgulhosamente que tirou um curso, hoje deve dizê-lo baixinho. «Shhhiiiuuu, os patrões das obras podem ouvir!»

Escrevi tudo isto apenas para deixar uma nota final:

Mãe, vês como eu, novinho, já sabia o que dizia?

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