Crónicas de um louco

Sinto-me cansado. Não sei bem se estou farto de ser quem sou, se estou com desejos de ser alguém que não sou. Estou numa, angustiante, crise de identidade.

Sinto-me ridículo ao expor-me desta forma, do mesmo jeito que me sinto privilegiado de me confessar a vocês. O receio da crítica e dos juízos de valor é inquietante, corrosivo e bloqueador. Ainda assim eu escrevo, porque olho e vejo uma folha branca, não caras. Sejam dez ou mil, para mim, neste momento, são apenas esse elemento sem vida, sem opinião e apenas receptor, que é uma folha de papel.

Que grandiosidade e que cobardia. Que grandiosidade a coragem de por palavras meigas e linhas travessas dizer que hoje me sinto uma merda. Que cobardia esconder-me atrás de um ecrã para dizer que nem sempre sorrio, que tenho momentos de dúvida.

Não é meu apanágio dar a conhecer a minha fragilidade a este ponto, porém o que tenho eu a perder? Estou desesperado em pensamentos sem fim, em viagens sem volta, que mais posso eu pedir que um elemento sem vida que acolha tudo isso? Que não me olhe de lado, não me julgue, ou sequer solte um sorriso sarcástico de chacota.

Existem pessoas que dia após dia batalham por segundos de vida, por uma segunda oportunidade, sejam elas doentes ou simplesmente desafortunadas pelo sítio em que vieram ao mundo. Como tenho eu a audácia de dizer que estou a ter um dia horrível? Pelo egoísmo com que vivemos. Se eu cortar um dedo irá me doer, sempre, muito mais que uma pessoa que foi atropelada por um camião e eu vi na televisão. Nós reivindicamos uma vida melhor, um mundo melhor, simultaneamente, seguindo num egoísmo infligido pela própria natureza. Nunca existirá uma fórmula que nos faça sentir a dor dos outros. Podemos reconhece-la, já ter passado por ela, mas nunca a sentiremos, naquele pedaço de tempo, com a mesma intensidade de quem a está a sentir naquele exacto momento.

Estou á patrão. Computador portátil á frente, um cinzeiro com um cigarro aceso ao lado, uma boa musica a tocar, uns pais na sala, uma namorada em casa, os amigos num café, ou em qualquer outro sítio que agora não me diz respeito, um carro estacionado na garagem, algumas viagens feitas e guardadas na memória, enormes histórias de vida, com um curso tirado e um emprego que me espera amanhã pelas 9h. Detenho tudo isto enquanto usufruo, também, da distinta ‘lata’ de me estar a queixar, de me dar ao luxo de ter uma crise de identidade.

Tudo isto porque todos vivemos de um egoísmo, que nos seus intervalos é substituído por um aclamado altruísmo. Isto não é uma crítica, é uma constatação de um facto.

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2 thoughts on “Crónicas de um louco

  1. dia complicado?!

    não vou comentar algo que não tem que ser comentado…espero que este post te tenha ajudado a superar essa fase e que tenhas falado com alguém! porque é apenas assim que “limpamos” esses maus pensamentos, desabafando.

    quanto ao que li, gostei da exposição, da nudez de sentimentos! és tu, e isso é algo de muito valor! 😉

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