Comunicar não é vaidade. É uma necessidade!

Mujica - A twelve years night

Todos ignoramos o óbvio. É mais fácil viver assim. A nossa atenção, capacidade de memória e motivação é limitada, pelo que necessitamos tomar decisões. Para o que olhar? Ao que prestar atenção?

São tudo perguntas lógicas, que não nos fazemos. Acontecem naturalmente, sem grande esforço de nossa parte. São o que chamamos rotina. E a importância do falar, do comunicar, também é uma dessas coisas que ignoramos?

Sem dúvida que sim.

Damos a comunicação como adquirida. Seja as longas conversas com os nossos amigos, o bom dia à senhora do café que já sabe o que desejamos ou o agradecimento à pessoa que, simpaticamente, nos segura a porta, são coisas banais. Não exigem de nós pensamento, num mundo que vive cada vez mais acelerado. É automático e liberta esforços para outras decisões mais importantes. Invisto no A ou B? Apoio o C ou D? Como ou não como? Vou ao café ou não vou? São tudo decisões importantes, que implicam o bem-estar imediato. O mais importante de todos, quando é a nós mesmos que queremos mimar.

No entanto, o filme “A twelve years night”, que fala da história do fim do fascismo no Uruguai, alertou-me para algo muito mais importante. A comunicação é o nosso estabilizador. Por muito que olhando à ideologia budista, por exemplo, onde o silêncio se apresenta como paz, pareça que o caminho está sempre em nós mesmos, a comunicação com os demais – seja falada, escrita ou por toques na parede, como aconteceu com Mujica e Mauricio Rosencof no Uruguai – é útil para o equilíbrio da nossa mente. Se vivermos apenas na nossa cabeça, silenciando todos os outros sinais, aproximamo-nos do precipício. Deixamos de distinguir o que é real (da vida que acontece no mundo que nos rodeia) e o que é fruto da nossa imaginação e racionalização.

Falar com os outros, partilhar as nossas ideias, não é apenas procurar validação externa. É alimentar a nossa mente, abrir-nos para outros mundos e equilibrar os nossos pensamentos. Colocar-nos em perspectiva. E quem não se coloca em perspetiva morre. Para o mundo, para si e para o futuro.

O Mujica, Rosencorf e Eleuterio Fernandez salvaram-se e ainda bem para nós. Mujica, por exemplo, tornou-se um dos políticos mais admirados no mundo. “O primeiro requisito na política é honestidade intelectual. Sem ela, tudo é inútil!” // “A minha definição de pobre é o que precisa de demasiado. Porque esses que precisam de muito nunca estão satisfeitos” //

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Os perigos de ser diferente

O perigo de ser diferente é a vitória e a derrota. É muito mais complexo do que ser banal, porque tudo se torna um perigo imediato de se perder a autenticidade, para se guiar pelo caminho da diferença. Pelo marcar presente no contraditório.

Ser diferente pode ser concordar com muita gente.

A diferença não reside no facto de discordar de toda gente, mora, essencialmente, no âmago de concordar com o que se acredita. Que pode ser dito pelo próprio diferente ou por qualquer outro banal. Todos os banais têm algo de especial, porque todos nós também temos algo de banal. Somos todos mais parecidos do que gostaríamos, na verdade. Movemo-nos por sentimentos muito simples como a alegria, o medo, a tristeza e a monotonia. Há, aliás, um estudo muito interessante de como a monotonia afeta todo o nosso mundo. Fechadas numa sala, sem mais nada do que uma campainha que dá choques, invariavelmente as pessoas preferem carregar numa campainha que as magoa do que estar sem fazer nada. Em marasmo. Isto diz de como o nosso mundo funciona.

Queremos estar sempre a fazer.

Mas o que faz os diferentes diferentes, então? Isso, não reagir logo aos estímulos e pensar. Criar opinião própria e segui-la, defendê-la, sem deixar de dar espaço ao que é a visão dos outros. Assumir o erro, quando é o caso. Aceitar a derrota. Olhar as responsabilidades próprias, mesmo quando elas não são as mais óbvias. “Trabalhar” para melhorar.

Mas qual é o risco dos diferentes, então?

As multidões que os puxam para o lado tranquilo das coisas, em que somos A ou B. Em que somos preto ou branco. O mundo está polarizado e a ausência de posição premente – dita coerente! – é defendida, pelos banais, como ausência de personalidade. Não é. É personalidade muito mais própria do que quem defende que só há um lado certo para as coisas. Mas os perigos não moram só aqui. Moram, também, na vitória.

– Gosto tanto de ti, por seres diferente.

E o prazer do elogio, da validação externa, torna os diferentes receosos de deixarem de ser diferentes, o que os faz iguais a todos os outros. Por isto, por tudo isto, ser diferente é dos maiores desafios com que uma pessoa pode lidar na sua vida. É silenciar as vozes externas e ouvir as interiores. Ser fiel ao erro, à dúvida, ao medo e a tudo o que ser diferente implica. Mesmo sabendo que somos todos iguais, na essência.

Um sonho real

Loba.cx

Ando a tentar aprender uma coisa por dia. Hoje, ontem e anteontem foi a ser grato pelo que a vida me dá.

Aqui estão alguns, no total somos mais de 80. Uma família? É exagerado. Os melhores amigos? É sempre suspeito. Mas pessoas que se respeitam, relacionam e remam todas para o mesmo lado. A rir, a chorar e a suar. Tudo faz parte.

O trabalho e a vida pessoal não se separam, completam-se. E termos na nossa vida 80 pessoas, com quem partilhamos grande parte das nossas horas, todas a remar para o mesmo lado é algo que nos deve fazer sorrir e agradecer. Respeitar.

E admirar.

Por tudo isto, receber uma estrela, no meio deste universo tão grande de pessoas incríveis, em que qualquer uma merecia, faz-me sentir ainda mais incrível. E quando temos pessoas à nossa volta que nos fazem sentir incríveis, só devemos agradecer.

Obrigado, Adelino Silva e João Gaspar, por terem criado muito mais que uma empresa ou agência. Por terem criado um sonho, que se tornou de todos. E continua.

LOBA.cx

O sonho de voar

 

O Sonho de Voar

Qual de nós não tem o sonho de voar? Tocar as nuvens, sentir a brisa ténue e fria no rosto. O corpo leve. A terra como uma mancha azul. Ao fundo. Pequenina. Os pássaros como companheiros de viagens. A lua como parceira de saídas. Encosto de noite.

Todos sonhamos com isso.

No entanto, assim que levitamos, estamos à procura de bases onde nos agarrarmos. Chão no céu. Pistas. Caminhos. Estamos habituados a viver assim:

Com certezas.

Elas não existem de nada e isso assusta-nos. Portanto, assim que nos apanhamos no céu procuramos é as nuvens, para termos a certeza que elas não se vão desfazer. Agarramo-nos a cada uma, como se fosse uma base para a viagem. Um porto seguro. Trocamos a leveza de voar, pelo receio das vertigens. A companhia dos pássaros pelo medo das suas migrações, ausências. Confundimos tudo. Voltamos a terra e depois ganhamos confiança. Sentimos saudades do azul e voltamos a voar. Vamos à procura das mesmas nuvens a que nos agarrámos e elas já não estão. Ou estão ainda, mas diferentes? Não sabemos. Nunca vamos saber. Mas temos que voar. À procura delas ou novas. Porque, um dia, vamos perceber que o prazer de voar é não controlar.

BOURDAIN – Cheio de pinta e cheio de razão

Anthony Bourdain

Nunca vi um programa do Bourdain. Pouca coisa li dele. Mas sei, desde logo, que era um dos gajos mais pintas que existe.

Quase 62 anos, tatuagens, cabelo grisalho e muitas viagens pelo mundo. Muitas experiências. Um grande Instagram, Twitter e Facebook. Uma mulher mais jovem. Uma crítica unânime em relação ao seu talento. Um mundo inteiro a admirá-lo.

O que faltava?

Nunca sabemos, mas raramente o externo é o que nos preenche. Apenas disfarça. E nós tendemos a demonstrar incompreensão (talvez porque fique bem e esconda as nossas próprias fragilidades) por estas decisões. Quase 62 anos, uma vida feita e pumba.

Não tem que nos fazer pensar em nada, porque era a vida dele e uma essência, por mais magnífica que fosse, que admirávamos à distância. Contudo deve alertar-nos para algo: porque acontece tanto com as “rock stars”?

O externo preenche sempre o vazio do interno. A droga camufla. E os mais brilhantes são sempre mais frágeis. Precisam ter uma sensibilidade diferente, uma angústia constante, para criar a um nível que para os outros não é possível. Porque para o coração estar presente em tudo o que fazemos, até no mais simples, como sugeria Pessoa, temos que o estar sempre a usar. A abusar dele.

E este talvez seja mais um desses casos, a angústia constante de quem cria sempre para o externo (seja em prato ou livro), para tentar combater o vazio interno. Reconheçam-me, pelo que eu não sou capaz de me reconhecer. Aliviem-me.

“I think the saddest people always try their hardest to make other people happy, because they know what it’s like to feel absolutely worthless and they don’t want anyone else to feel like that”. Foi o próprio que o disse. Cheio de pinta, cheio de razão.

As Praias que me movem, como ao Mar

As praias que me movem, Costa da Caparica

1 mês por cá e a linha do horizonte continua deitada, a areia a receber o mar e o mar a ir e voltar. A procurar e a achar.

O mar é uma boa metáfora. Aquece e arrefece em função das marés e não da estação do ano. Nós é que nos deixamos enganar pela temperatura em volta, pelo ambiente que nos rodeia. Vai e vem. Muitas vezes. Sempre à procura de novas correntes, a fazer novas ondas e a procurar costas onde esbarrar. E esbarra sempre. Porque elas podem ser mais íngremes, empedernidas ou arenosas, que são sempre costas. Praias e penhascos. Portanto, a visão é diferente, mas a sensação é a mesma. De conquista. Conquista metros de costa – mais do que devia, até, no nosso Furadouro e em outras praias -, mas sabendo que o procura é sempre o mesmo. Acalmar as suas correntes. Rebentá-las em algo que lhe dê chão. Para, depois, voltar à sua imensidão certo que escreveu mais um capítulo de vida. De rebentação. De calma que vem da agitação e que cria mais agitação. Entusiasmo.

E eu sou um assim, um mar que veio rebentar a Lisboa. E que gosta de Lisboa como gosta de Ovar, do Porto ou da Indochina. Desde que rebente as minhas marés em praias que me acalmem e agitem para novas aventuras. Como esta da Costa da Caparica, que foi uma das primeiras que me recebeu.

Olhar o mar, apreciá-lo e… Fazer ou pensar?

Mar - pensar ou fazer

É uma pergunta que me assola muitas vezes. Nós somos o que fazemos, não o que pensamos. Mas se fazemos sem pensar, também não estaremos a ser demasiado vazios?

É complicado, isto de ser existencial. Viver para experimentar. Pensar para compreender. Tudo está agarrado a algo, como se vida fosse um ventríloquo. Os braços do pensamento dão voz à existência. E ela acontece fora do nosso alcance. Desprevenida, descontraída e impossível de prever. Como tem que ser.
Mas, depois, porra. Não basta ser. É preciso parecer. Fazer!

Mais do que ser, fazer. Porque o fazer é que nos faz ser. A prova disso? Pensei muito em mergulhar, mas só depois de mergulhar me senti livre. Molhado. Feliz. A viver.

O pensamento é um subterfúgio do não fazer. Pára. Estanca. Pensa. E, se pensas, não fazes. Portanto, fazer sem pensar não é o ideal. Mas é melhor que não fazer. Dá aprendizagem, crescimento. Faz pensar. E o bom do fazer é isso:

Permite pensar com conteúdo.

Portanto, mergulhei. E, depois, pensei: está fria. Se tivesse pensado antes, o frio já me estaria a alarmar antes de o sentir. E o que pensamos antes de sentir não é accionável. Não é controlável. É só dor.

E o frio depois do mergulho foi, afinal, o alívio do calor. Tão bom.

#MaisUmaViagemSemViajar