A liberdade que não se encontra

A liberdade que não se encontra

Quem procura a liberdade não encontra. Os grandes revolucionários, por mais importantes que tenham sido para nós, nunca viveram a sua própria liberdade.

São reféns de ideias, presos a necessidades e afectos a resultados. Não vivem. Contestam! Procuram!

Mesmo após a libertação de um país, de um povo ou meramente de um lugar, nunca são livres. Não querem as chuvas, não querem os ventos, não querem o sol. Querem as coisas grandes. As imensidões que movem mundos.

Ainda bem que eles existem.

Eu, porém, quero ser cada vez menos dessas coisas. Quero ser egoísta, porque quem não amar a sua solidão, jamais estará preparado para amar a liberdade. Estará apenas pronto para procurá-la. Movendo todas as rochas, afastando-as, em busca da pedra preciosa que por baixo delas se esconde. O grande ideal. O grande momento.

Eu não.

Quero momentos como hoje. Em que, num simples jogo de futebol, com o céu fervido por um clima de temporal para fogos e fervor para os restantes habitantes, desembocou numa chuvada. Caiu límpida, a arrefecer o meu corpo e a molhar o meu cabelo. Isso foi liberdade.

Acompanhado, no meio de um jogo de futebol, encontrei a solidão do sentir. A liberdade. E ela viajou por mim, pelo meu corpo. E eu viajei por ela. Sem viajar.

Qual destino?

Destino Douro

Quando não controlamos o rumo dos acontecimentos, o vento bate nas nossas convicções – como uma rajada que abana as velas vindo de estibordo – e obriga-nos a seguir outros rumos. Como desculpa, dizemos:

É o destino.

Quando as coisas se compõem, o cosmos une-se para nos acender uma luz no caminho e dizer: é por ali. Não hesitamos:

É mérito.

Mas a vida não é uma linha recta. Tem curvas, oscilações e marés. Como o Douro. Faz encostas e vales. No entanto, o segredo é sabermos que se olharmos só para uma encosta é uma montanha para subirmos. Se olharmos só para uma oscilação do terreno é uma barreira para o destino. Se olharmos só para as marés são um perigo. Mas se olharmos para a paisagem é uma das zonas mais belas do mundo.

O destino é uma farsa para o que não conseguimos controlar. Mas a maior lição dele é: quem conduz, se souber que o leme é para andar solto, apreciará muito mais a viagem. As oscilações são a viagem. O conjunto das montanhas, vales e marés são o destino. O que não guiamos, mas fazemos.

Leme solto e curvas a serem aproveitadas. Este é o segredo da maior viagem sem viajar que podemos fazer. A da vida.

A salvação do Nestor

No dia em que iam matá-lo, o Nestor acordou sobressaltado.

O tempo estava quente, a própria chuva tépida e o sol a recolher-se numa encosta ao fundo da montanha que pintava a piscina do seu jardim. O Nestor foi para o jardim. Sentia os assassinos a chegarem, as suas vozes as perscrutarem-se por entre as folhas. Os arbustos rangiam.

Olhava para trás e seguia. Sem destino. Sem rumo. Seguia.

E seguir, sem saber para onde, é fugir. O Nestor fugia. As vozes repetiam-lhe que não ia conseguir, que ia falhar. Atormentavam-no. Diziam-lhe: não tentes. O erro é o destino. O sofrimento é o caminho. E ele assustava-se mais e mais.

Corria cada vez mais. Lembrava-se das vezes em que verdadeiramente não conseguiu – e escorregou. Caiu à piscina. Caiu na água como uma folha. Leve. Ele, que pesava mais de 100 quilos e não sabia nadar, caiu na água leve. Era o Nestor a nadar.

Conseguiu. Porque não tentou.

As vozes da nossa cabeça são isto: assassinas. Por isso, quando me perguntam o que é preciso para ser feliz, eu respondo:

– Não querer ser feliz.

Quando queremos ser felizes, empurramos a felicidade à nossa frente como um carro de bois, numa descida, empurra os próprios bois. Passa a ser um objetivo. E os objetivos, quando não são tangíveis, materiais, fogem. Estão sempre a seguir ao ponto onde estamos. Por mais perto que estejam. Assim, ou o objetivo é material ou não é alcançado.

Isso é o que move os génios e inquieta os infelizes. A felicidade é o não procurá-la. É apenas a disposição para viver.

PS – Nesta piscina vivi uma bela festa. Uma viagem sem viajar. Em que criei uma moldura para este texto: a salvação do Nestor.

A infância é uma farsa

Infância POrtoPrepara-nos para uma vida que não existe.

Ainda em miúdo, preparava os alicerces da minha vida adulta com um certo adubo de malandragem, a plantar sorrisos em todas as casas de família, ou de amigos dos meus pais, onde passava. Todos me diziam que sim, me acenavam com primaveras no rosto e verões no entusiasmo. Homens e mulheres.

Hoje em dia, já depois de adulto, para colher um sorriso mais rasgado, uma plantação de benevolências, não raras vezes temos que compor sonetos, sermos melhores do que somos e mentirmos. Falarmos da infância sem nos lembrarmos.

As recordações de infância são uma falsidade, não existem. Conforme defendia o Miguel Torga, a infância, para ser infância, tem que ser ingénua. E a ingenuidade não tem consciência. Portanto, hoje, o que referimos como recordações de infância são projecções da pessoa que somos, na criança que um dia fomos.

Mentimos. A infância não tem corpo. É um falsidade.

Projectamos nela o que queremos hoje. Por exemplo, para mim, em criança, ir ao Porto, onde hoje andei de manhã, era sinal que eu era um fixe. Que os meus pais eram uns fixes. Tiravam-me da pequena e humilde cidade que é Ovar, para me levarem ao Porto, que passa – e passava – nos telejornais, onde as pessoas são grandes e até as televisões estão. Era fixe. Era um refúgio.

E isto é a prova que as recordações de infância são uma falsidade. A palavra refúgio surge-me na memória por ilusão óptica. Porque olho para as cidades grandes, hoje, e vejo refúgios. Sou oculto. Sou desconhecido. Sou neutro.

Posso perder-me e sentir-me refugiado. E esse é o segredo das viagens sem viajar: partir sem saber o que encontrar. Romper com a infância lembrada e criar uma nova. Esta é a infância que eu quero. A de agora. A de antes é uma farsa.

Amar o futuro é um erro

Amar o futuro é um erro

Amar o futuro é um erro. Acelera-nos o processo e deixa-nos infelizes. Inseguros.

Amar o futuro e planear o futuro são coisas diferentes. Sensações diferentes. É o medo que nos move, quando a nossa adoração, o nosso fruto de paixão, está no amanhã. Nunca nos retribui. Porque quando o abraçamos já é passado.

Traímos o presente.

O presente que, em pleno altar da maternidade, nos disse “acompanhar-te-ei até ao teu último segundo”, passa a ser segundo plano da nossa vida. Deixamos de o amar. Passamos a olhá-lo como um chato, como um incompleto, que só nos fala e aparece para aborrecer. Queremos é o futuro, aquelas curvas incertas do desconhecido, aquele gemido do oculto. E ficamos sozinhos. Porque o futuro nunca cá está.

Amar o presente é planear com ele o futuro. Dizer-lhe: eu quero lá estar. Mas contigo. Sempre contigo. Quero que sejas o meu dia, a minha noite e o meu tudo. O futuro é só o outro, mas que nunca será o principal.

Queres vir comigo ver os barcos, presente? É uma viagem sem viajar.

Às vezes não sentimos

Fernando Pessoa - 129 anos

Principalmente, quando escrevemos. As palavras tornam-se elementos estéticos, as sensações viram personagens e as dores e alegrias fazem-se histórias. Ou, então, não é nada disto e inspirei-me numa frase do grande (enormíssimo) Fernando Pessoa:

“O que confesso não têm importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações”.

O poeta faria hoje 129 anos, mas esta leitura não foi uma homenagem. Foi uma feliz coincidência: um livro há muito parado na secretária, uma vontade de ler empoeirada e uma tarde de sol, após uma manhã de chuva, em que saí mais cedo do trabalho. Mas isto é que é viajar, não é?

Deixar a vida tomar o leme das ocorrências, ajeitando somente as velas das nossas vontades. Não dominamos nada. Só sentimos. Menos quando escrevemos. Aí: “faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações.”

Parabéns ao Poeta! E a mim, que fiz mais uma viagem sem viajar.

Ser Diferente Não É Fixe

Ser Diferente Não é FixeSer igual a si próprio é que é.

Cada vez mais, movidos pelas constantes mutações que a sociedade nos impõe, procuramos ser únicos, diferentes. Um achado no meio de um aglomerado.
Contudo, esquecemo-nos do básico:

Sermos únicos não é uma escolha. É um facto.

Todos somos unos, por mais amestrados à sociedade que sejamos. Podemos fazer como a comunidade nos pede, ou obriga, mas jamais sentiremos como toda a comunidade nos pede. Isso faz-nos únicos. Sempre fará.

As modas, que variam do vestir ao sentir, passando pelo comer, fazem-nos reféns da sociedade. Todavia, ao contrário do que cremos na labuta mais actual de sermos díspares, como um diamante no meio de um areal, ou uma batata num arroz de polvo, não são elas que nos definem. Somos nós. Na nossa forma de sentir.

No velho exemplo dos dois rapazes que caem no passeio e um, usando-se da situação, conquista a rapariga que está do outro lado da estrada, enquanto o outro foge, está a prova de tudo isto:

O acontecer é igual, o sentir é diferente.

Nenhum deles é distinto da colectividade em que nos inserimos, só é único na forma de sentir. E, por consequência, de fazer. O sentir vence sempre o fazer. Porque mostra-nos sem querermos, como um copo de vidro vazio a espelhar-nos para o vizinho de mesa.

Por isso, numa das minhas últimas viagens, em que viajei mesmo, não hesitei em ser igual à manada. Fotografei e comi. Postei e saboreei. Escolhi o típico e partilhei.

Isto foi não ser diferente. Porque não me apetecia ser diferente. Gosto de ser igual, quando é igual que me apetece ser.

Ou seja – e em suma:
fui diferente ao ser igual. E foi fixe.