O sonho de voar

 

O Sonho de Voar

Qual de nós não tem o sonho de voar? Tocar as nuvens, sentir a brisa ténue e fria no rosto. O corpo leve. A terra como uma mancha azul. Ao fundo. Pequenina. Os pássaros como companheiros de viagens. A lua como parceira de saídas. Encosto de noite.

Todos sonhamos com isso.

No entanto, assim que levitamos, estamos à procura de bases onde nos agarrarmos. Chão no céu. Pistas. Caminhos. Estamos habituados a viver assim:

Com certezas.

Elas não existem de nada e isso assusta-nos. Portanto, assim que nos apanhamos no céu procuramos é as nuvens, para termos a certeza que elas não se vão desfazer. Agarramo-nos a cada uma, como se fosse uma base para a viagem. Um porto seguro. Trocamos a leveza de voar, pelo receio das vertigens. A companhia dos pássaros pelo medo das suas migrações, ausências. Confundimos tudo. Voltamos a terra e depois ganhamos confiança. Sentimos saudades do azul e voltamos a voar. Vamos à procura das mesmas nuvens a que nos agarrámos e elas já não estão. Ou estão ainda, mas diferentes? Não sabemos. Nunca vamos saber. Mas temos que voar. À procura delas ou novas. Porque, um dia, vamos perceber que o prazer de voar é não controlar.

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BOURDAIN – Cheio de pinta e cheio de razão

Anthony Bourdain

Nunca vi um programa do Bourdain. Pouca coisa li dele. Mas sei, desde logo, que era um dos gajos mais pintas que existe.

Quase 62 anos, tatuagens, cabelo grisalho e muitas viagens pelo mundo. Muitas experiências. Um grande Instagram, Twitter e Facebook. Uma mulher mais jovem. Uma crítica unânime em relação ao seu talento. Um mundo inteiro a admirá-lo.

O que faltava?

Nunca sabemos, mas raramente o externo é o que nos preenche. Apenas disfarça. E nós tendemos a demonstrar incompreensão (talvez porque fique bem e esconda as nossas próprias fragilidades) por estas decisões. Quase 62 anos, uma vida feita e pumba.

Não tem que nos fazer pensar em nada, porque era a vida dele e uma essência, por mais magnífica que fosse, que admirávamos à distância. Contudo deve alertar-nos para algo: porque acontece tanto com as “rock stars”?

O externo preenche sempre o vazio do interno. A droga camufla. E os mais brilhantes são sempre mais frágeis. Precisam ter uma sensibilidade diferente, uma angústia constante, para criar a um nível que para os outros não é possível. Porque para o coração estar presente em tudo o que fazemos, até no mais simples, como sugeria Pessoa, temos que o estar sempre a usar. A abusar dele.

E este talvez seja mais um desses casos, a angústia constante de quem cria sempre para o externo (seja em prato ou livro), para tentar combater o vazio interno. Reconheçam-me, pelo que eu não sou capaz de me reconhecer. Aliviem-me.

“I think the saddest people always try their hardest to make other people happy, because they know what it’s like to feel absolutely worthless and they don’t want anyone else to feel like that”. Foi o próprio que o disse. Cheio de pinta, cheio de razão.

As Praias que me movem, como ao Mar

As praias que me movem, Costa da Caparica

1 mês por cá e a linha do horizonte continua deitada, a areia a receber o mar e o mar a ir e voltar. A procurar e a achar.

O mar é uma boa metáfora. Aquece e arrefece em função das marés e não da estação do ano. Nós é que nos deixamos enganar pela temperatura em volta, pelo ambiente que nos rodeia. Vai e vem. Muitas vezes. Sempre à procura de novas correntes, a fazer novas ondas e a procurar costas onde esbarrar. E esbarra sempre. Porque elas podem ser mais íngremes, empedernidas ou arenosas, que são sempre costas. Praias e penhascos. Portanto, a visão é diferente, mas a sensação é a mesma. De conquista. Conquista metros de costa – mais do que devia, até, no nosso Furadouro e em outras praias -, mas sabendo que o procura é sempre o mesmo. Acalmar as suas correntes. Rebentá-las em algo que lhe dê chão. Para, depois, voltar à sua imensidão certo que escreveu mais um capítulo de vida. De rebentação. De calma que vem da agitação e que cria mais agitação. Entusiasmo.

E eu sou um assim, um mar que veio rebentar a Lisboa. E que gosta de Lisboa como gosta de Ovar, do Porto ou da Indochina. Desde que rebente as minhas marés em praias que me acalmem e agitem para novas aventuras. Como esta da Costa da Caparica, que foi uma das primeiras que me recebeu.

Olhar o mar, apreciá-lo e… Fazer ou pensar?

Mar - pensar ou fazer

É uma pergunta que me assola muitas vezes. Nós somos o que fazemos, não o que pensamos. Mas se fazemos sem pensar, também não estaremos a ser demasiado vazios?

É complicado, isto de ser existencial. Viver para experimentar. Pensar para compreender. Tudo está agarrado a algo, como se vida fosse um ventríloquo. Os braços do pensamento dão voz à existência. E ela acontece fora do nosso alcance. Desprevenida, descontraída e impossível de prever. Como tem que ser.
Mas, depois, porra. Não basta ser. É preciso parecer. Fazer!

Mais do que ser, fazer. Porque o fazer é que nos faz ser. A prova disso? Pensei muito em mergulhar, mas só depois de mergulhar me senti livre. Molhado. Feliz. A viver.

O pensamento é um subterfúgio do não fazer. Pára. Estanca. Pensa. E, se pensas, não fazes. Portanto, fazer sem pensar não é o ideal. Mas é melhor que não fazer. Dá aprendizagem, crescimento. Faz pensar. E o bom do fazer é isso:

Permite pensar com conteúdo.

Portanto, mergulhei. E, depois, pensei: está fria. Se tivesse pensado antes, o frio já me estaria a alarmar antes de o sentir. E o que pensamos antes de sentir não é accionável. Não é controlável. É só dor.

E o frio depois do mergulho foi, afinal, o alívio do calor. Tão bom.

#MaisUmaViagemSemViajar

Não juntes dinheiro

não juntes dinheiro

Bayona, Espanha

Junta amigos, uma praia e uma cidade desconhecida. Traz à memória histórias de infância, adolescência e cria novas. Vive.

Faz felizes os de quem gostas e sê feliz. Muito feliz. A felicidade é paz. Saber que foste, saber que viveste. Acontecer. Não importa se é bom, se é mau ou desenxabido. Importa é que tenha acontecido. Que o mar tenha beijado a costa. Que a garrafa tenha sido esvaziada e que a vida tenha acontecido. A vida acontecer é ser feliz.

E o dinheiro não paga isso. Mesmo que faça falta para outras coisas.

A morte dá respostas à vida. Viaja!

A morte dá respostas à vida

(photo: @mickeyoneil)

Pessoas próximas, que não conhecemos tão bem assim, fogem-nos. Desaparecem num infinito que gostamos de imaginar como mar, o céu ou a terra. Mas não conhecemos. Sabemos apenas que é infinito.

Essa noção de distância inalcançável assusta-nos, tira-nos o chão forte para ser pisado e coloca-nos à procura de respostas, da costa. Não para a partida de quem foi, mas para o significado da nossa permanência. Misturamos o medo, o desespero e a esperança. É estranho, mas é assim. A esperança nasce, quase sempre, da ausência limite de esperança ou explicação.

A vida é curta.

É assim que elas nos aparece quando a ausência de sentido para as partidas assoma. Fugimos do medo, gradualmente, para nos aproximarmos da vida. Por isso, que, a partida de alguém tão próximo e jovem, seja sempre a abertura para algo novo. Uma nova nau que parte para a turbulência que é vida, mesmo quando o mar está calmo.

Porque, assim, a morte responde à vida – ou a vida dá resposta à morte. E essa é – e deve ser – a nossa homenagem para todos os que vão, mesmo os mais jovens. Um dia encontramo-nos todos. Na festa do costume.

Ontem punha-me um gosto num texto a brincar. Hoje não está entre nós. Descansa em paz, Paiva! E um abraço a todos os grandes amigos, família e meros conhecidos como eu, que se emocionam com estas coisas. A vida é curta e o descanso é eterno. No meio está o que podemos aproveitar. A viagem.

 

A liberdade que não se encontra

A liberdade que não se encontra

Quem procura a liberdade não encontra. Os grandes revolucionários, por mais importantes que tenham sido para nós, nunca viveram a sua própria liberdade.

São reféns de ideias, presos a necessidades e afectos a resultados. Não vivem. Contestam! Procuram!

Mesmo após a libertação de um país, de um povo ou meramente de um lugar, nunca são livres. Não querem as chuvas, não querem os ventos, não querem o sol. Querem as coisas grandes. As imensidões que movem mundos.

Ainda bem que eles existem.

Eu, porém, quero ser cada vez menos dessas coisas. Quero ser egoísta, porque quem não amar a sua solidão, jamais estará preparado para amar a liberdade. Estará apenas pronto para procurá-la. Movendo todas as rochas, afastando-as, em busca da pedra preciosa que por baixo delas se esconde. O grande ideal. O grande momento.

Eu não.

Quero momentos como hoje. Em que, num simples jogo de futebol, com o céu fervido por um clima de temporal para fogos e fervor para os restantes habitantes, desembocou numa chuvada. Caiu límpida, a arrefecer o meu corpo e a molhar o meu cabelo. Isso foi liberdade.

Acompanhado, no meio de um jogo de futebol, encontrei a solidão do sentir. A liberdade. E ela viajou por mim, pelo meu corpo. E eu viajei por ela. Sem viajar.